Dez Milhas Garoto abre inscrições e repete vexame digital: site trava e deixa atletas de fora
Por Nobinho Atleta Amador
Dez Milhas Garoto expõe fragilidade da Yescom: gigante no discurso, amadora na prática digital
A Dez Milhas Garoto é, sem exagero, uma das corridas mais emblemáticas do Brasil. Tradicional, linda, histórica, com mais de três décadas conectando atletas, famílias e o Espírito Santo inteiro em um evento que virou símbolo do esporte capixaba. Só que, mais uma vez, o problema não está no percurso. Está antes mesmo da largada.
As inscrições abertas no dia 28 de abril escancararam um cenário que já virou rotina: site travando, sistema caindo, erro de cadastro e gente ficando de fora. E não é pouca gente.
Atletas que treinam o ano inteiro, que correm buscando tempo, evolução e performance, simplesmente não conseguiram se inscrever. Enquanto isso, as vagas desaparecem em minutos, muito mais por sorte no clique do que por mérito esportivo.
A coluna atleta amador ouviu diversos corredores que ficaram de fora e o sentimento é praticamente unânime: revolta.
E o mais curioso é que solução não falta. Tem atleta pedindo mudança completa no sistema, outros defendendo fila virtual organizada, pré-cadastro com validação, controle mais rígido de acessos.
Muitos sugerem até a criação de cotas específicas para capixabas, já que se trata de uma prova símbolo do estado. Equipes também reclamam da inscrição em massa, que acaba travando ainda mais o sistema. Ou seja, o problema já foi identificado faz tempo. Falta executar.
A responsabilidade pela operação é da Yescom, empresa que se posiciona como referência nacional em eventos esportivos. Mas o que se vê na prática é um sistema digital que não acompanha o tamanho das provas que organiza. Erro atrás de erro, site fora do ar, cadastro que não finaliza. Isso não combina com quem está à frente de eventos desse porte. A sensação que fica é simples: gigante no marketing, fraca na execução.
Hoje, qualquer evento de grande escala trabalha com tecnologia robusta. Fila inteligente, servidores escaláveis, controle de acesso, prioridade por perfil de atleta. Nada disso é novidade. Ainda assim, ano após ano, o roteiro se repete: abre inscrição, o sistema cai, o atleta se estressa, a internet vira meme e nada muda.
Nos bastidores, entre os próprios corredores, surge até uma reflexão que vai além da prova.
Desde que a Nestlé assumiu a Garoto, muita gente comenta que produtos clássicos perderam parte da qualidade popular de antes. A tradicional caixa de bombom mudou, o Serenata de Amor já não é mais o mesmo para muitos consumidores. Não é o foco principal aqui e fica como percepção, mas quando um símbolo tão forte começa a ser questionado, isso inevitavelmente respinga na forma como a marca é vista como um todo. Inclusive no evento.
O fato é que a Dez Milhas Garoto continua sendo gigante, continua sendo desejada e continua sendo uma das corridas mais bonitas do Brasil. Mas está sendo limitada por um problema básico: acesso.
Hoje, o maior desafio não é correr os 16 quilômetros. É conseguir uma vaga para largar. E isso, para um evento desse tamanho, já deixou de ser detalhe. Virou desrespeito com quem leva a corrida a sério.

Atleta amador e apaixonado por esportes radicais, Nobinho é surfista desde 1992 e já rodou o mundo em busca das melhores ondas. Corredor de rua com mais de 20 anos de experiência, já participou da tradicional São Silvestre, mais de 20 edições das Dez Milhas Garoto, a Corrida Internacional da Pampulha e três edições da Meia Maratona do Rio de Janeiro. Faixa roxa de jiu-jitsu pela família B-Clan, também se dedica a trilhas, canoa havaiana, trekking, pedal e luta.
Empresário da área de comunicação e pai da pequena Sofia, escreve suas colunas em tom pessoal, compartilhando experiências, aprendizados e reflexões sobre esporte, superação e estilo de vida saudável.




