O SUBLIME FOTOGRÁFICO – a Amazônia de Sebastião Salgado

O SUBLIME FOTOGRÁFICO – a Amazônia de Sebastião Salgado

Por Isabela Frade

Desta vez vamos falar sobre o que todo mundo está vendo, não sobre algo ainda não conhecido ou notado, mas vou tentar compartilhar impressões e propor refletir ao que estamos vivendo, seguindo mais a fundo sobre uma estratégia revigorada na arte contemporânea, a dimensão do sublime que se afirma pelos espaços expositivos. Vitória recentemente inaugurou um espaço que demarca essa dinâmica e, juntos, podemos observar o início de uma trajetória institucional. Se o novíssimo Cais das Artes reflete um desejo aninhado há tempos pelos artistas e agentes do campo artístico vivo da capital, também mostra intensa repercussão junto ao público. A mostra inaugural presta homenagem a um dos fotógrafos mais reconhecidos da atualidade, Sebastião Salgado. Salgado nasceu em Minas mas decidiu criar raízes – e muitas! – na zona que deixou mais verde em Aimorés, na vizinhança com Baixo Guandu. Como a floresta desconhece fronteiras, sua obra também é nossa: seu Instituto Terra é destino de afetos capixabas. E, agora, com mais intimidade ainda, já que a visitação à série Amazônia está ultrapassando 20 mil espectadores (dado divulgado pelo Secretário de Cultura do Estado, Fabrício Noronha). Um verdadeiro show para os padrões das artes visuais.

O Sublime Estrutural – o espaço expositivo contemporâneo

Ainda que o caixote brutalista do Cais seja um peso opaco e frio na paisagem litorânea da Baía de Vitória, ele se faz como espaço de privilégio para a arte pela capacidade de acolher grandes mostras, vocacionado a atrair nomes de referência nacional e internacional. A sua lógica expositiva se dá pelo grandioso e por possibilitar mostras historicamente imersivas, assim como outras exibições extensas, no destino dirigido ao grande público. Desde o hall de convivência afirma seus dispositivos educativos como o auditório; também a livraria que, além do salão de exposições, o colocam como um espaço de formação expressiva. São os primeiros aparatos que vemos funcionando e a promessa é muito boa.

Como projeto a responder ao clamor dos estetas, a pressão era muita e a ansiedade venceu e, mesmo ainda iniciando sua instalação, já estava “causando”, é um tremendo sucesso de público. A cidade de Vitória está feliz e orgulhosa por mais essa conquista. Ainda que lamentemos o impacto na paisagem na vista da monótona massa gris de sua edificação, o espaço nobre da arte está garantido. É um exemplo de modernidade avançada com sua escala grandiosa e estilística minimal, uma instituição que responde por sua imponência. Ali os grandes vazios se intensificam. Dentro se instala a sóbria atmosfera de uma ambiência artística destilada, separada a obra dos ruídos do mundo e posta em cena no grande palco. A tônica é a teatralidade.

A espacialidade do cubo branco se distende na poderosa caixa plúmbea ao exacerbar a espacialidade artificial que é o lugar requerido pela arte moderna. O sublime arquitetônico é uma metáfora para significar a amplitude magistral em uma escala que a torna contemporânea. Ao permitir o isolamento e destaque de cada obra, deixando-as livres e perfeitamente iluminadas, protegidas e exuberantes; assim, se cria o contexto de sua purificação absoluta pela modelagem final, na elaboração de um território estético radicalmente autônomo. É quando se produz a aura extrapolada da exibição no poder de, como polo irradiador, afetar o espaço ao seu redor.

O Sublime Natural – a luz da Amazônia em Sebastião Salgado

Nessa primeira exposição foram buscar uma espécie de encanto maior, o impacto de uma referência marcante, um artista não exatamente local, pois Salgado era mineiro, mas ele escolheu tocar na franja do Espírito Santo para desenvolver um projeto de restauração de floresta, o Instituto Terra em Aimorés, região de fronteira, terminando seus dias nesse gesto generoso de cuidado. A curadoria de Lélia Wanick Salgado, sua companheira, dedicou-se ao que segue ali impregnando as almas sedentas de beleza real, de sensível delicadeza – conjugada entretanto por ser sutileza com força, em estado de pujância.

Descobrimos nuances dessa que é, ainda, a maior floresta do mundo. Descobrimos suas montanhas, com destaque para o Monte Roraima e suas cachoeiras deslumbrantes. As massas de chuva aérea, os rios de que ouvimos falar lá estão, correndo pelo céu em massas nebulosas registradas com extrema inteligência. Visões de topo, de vista frontal e de imersão demonstram que Salgado estava buscando esse reconhecimento, na captura do grande ente, as paisagens em recortes amplos da Amazônia e com foco de grande angular, dedicado a retratar seus elementos em integralidade. Cada árvore possui dignidade mas não está separada das demais. A floresta está ali em como cenário aberto de intensa vibração.

Precisei escrever ouvindo os cânticos rituais Hun˜i-Ku˜i para pensar sobre a vastidão impregnada na fotografia de Salgado, na beleza fria de seus múltiplos tons de cinza e intrincadas texturas, processos de foto-grafia, a escrita da luz que delicadamente se inscreve no papel fotossensível. Analogia de cada pressão luminosa, uma verdade absoluta.

A beleza deslumbrante da floresta está presente, capturada na imagem impregnada da luminosidade amazônida. Sua visão mais pujante, uma floresta como ninguém jamais viu. Sublime. Majestosa. Magnífica. Valores da luz que mostram os quadros de uma realidade ainda distante; um outro mundo, essa floresta!

Reflito sobre o que não mais existe nessas paragens por tantas violações que esta segue sofrendo, com agravantes das novas paisagens que mostram os rios envenenados de mercúrio, as dragas sugando o fundo dos rios em busca do ouro. As barragens, as estradas e vias fluviais carregadas de madeira, tudo indo para fora, como sempre desde 1500 e mais seus novos modelos tecno-plantation. Ainda as pastagens cortando a floresta pelas suas margens, as grandes fazendas de soja crescendo em extensões da avareza agropop. A repetida exploração de uma ideia de natureza que serve à usura. Hoje a morte vem com uma pressa de correntes presas em tratores, uma violação sem limites de uma floresta que é riqueza para seus sicários.

Um vazio verde, era assim que a Amazônia era vista pelos exploradores – e ainda persiste para os que não se abrem à sua humanidade. Visita como uma massa indistinguível de plantas, temida por suas águas “putrefatas”, local onde todas as criaturas são feras. Inclusive pessoas. Mas Sebastião Salgado não estava assim distante e as trouxe para um contato próximo e digno, apresentou retratos individuais e também takes em que as comunidades indígenas podem ser vistas em atividades nas suas moradas e em cenas na floresta.

O Sublime Humano – os povos imersos na vegetalidade

É impossível não pensar nos Zoé tão vulneráveis à ganância extrativista em cenas pungentes de famílias amorosas, os seus olhares cheios de humanidade. A imagem do bom selvagem de Rousseau vibra dentro de nós no pulsar dessas visões sublimes de um corpo sem mácula de vergonha ou culpa. Seus corpos são retratados por Salgado com o cuidado de revelar outra humanidade, sem descuidar de sua beleza integrada aos valores de suas lentes poderosas, algumas vezes em um estúdio criado em plena floresta: um terreno neutro para a captura de retrato.

Nas fotos também os vemos livres e soltos na imensidão. E não apenas os Zoé, mas várias etnias dos territórios abordados. Uma Amazônia humanizada.

Eles também nos olham respondendo à nossa mais árida rusticidade emocional. E nós, escondidos pelas vestes alienantes pelas quais criamos distância de nossa própria natureza animal, ofuscados em personas ávidas, apressadas e pretensiosas, temos que encarar que nos perdemos em uma superioridade fugaz: O futuro é ancestral, eles revelam.

Lembro-me de sobrevoar a floresta indo do Rio de Janeiro à Medellín em 2016 e, por horas, atravessar a imensa massa verde vista da janelinha do avião. Pensava na época que ainda tínhamos muito verde a defender. Mas agora, passado o tempo da não reação ao terror da serra elétrica do progresso, chego aos tempos do fim do mundo (Antropoceno) temendo mais por nós mesmos, já que somos despossuídos dessa sóbria virtude da nudez que revela a união unívoca com o meio natural.

A última (e única) pergunta a colocar: – Quantas viagens de descobrimento ainda precisamos fazer?

Nota 1: As fotos são simples registros feitos para informar, apresentando recortes e ajustes; são referências às algumas das imagens evocadas pelo texto. Estão indicadas as datas entre 2019 e 2018 das imagens que capturei diretamente no espaço expositivo.

Nota 2: Salgado nos deixou em 2025, sua morte se deu em decorrência de uma leucemia, resultado da malária anteriormente contraída. Fiquei pensando se alguma de suas idas à Amazônia seria a causa dessa contaminação. Terá sido o preço por essa obra? De todos os modos, por todas essas maravilhas retratadas, sem dúvida, um pouco de sua alma ficou por lá.