Alta de 53% nas internações por depressão e ansiedade amplia atenção às mudanças no sono

No Setembro Amarelo, especialista explica por que insônia, sonolência e outros problemas de sono também merecem atenção
A depressão não se manifesta apenas por alterações no humor. Segundo o Ministério da Saúde, insônia ou sonolência também podem fazer parte do quadro, ao lado de cansaço, falta de energia e dificuldade de concentração. As mudanças na forma de dormir podem acompanhar o transtorno e tornar a rotina e a recuperação ainda mais difíceis.
No Espírito Santo, as internações pelo Sistema Único de Saúde relacionadas a episódios depressivos, transtornos depressivos e transtornos ansiosos cresceram 52,9% em quatro anos. Segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) o número passou de 459, em 2021, para 702, em 2025. Do total registrado no último ano, 527 internações foram de pacientes do sexo feminino, o equivalente a 75%.
Para a pneumologista e especialista em Medicina do Sono Jéssica Polese, o Setembro Amarelo também abre espaço para discutir uma dimensão da depressão que nem sempre recebe a mesma atenção. Enquanto o transtorno pode modificar a forma como uma pessoa dorme, noites ruins afetam a regulação das emoções e podem intensificar sintomas já existentes.
“O sono e a saúde mental mantêm uma relação de mão dupla. A depressão pode provocar dificuldade para adormecer, despertares frequentes, sono não restaurador ou até uma necessidade excessiva de dormir. Ao mesmo tempo, noites ruins afetam a disposição e a capacidade de enfrentar as atividades diárias”, explica Jéssica.
Como depressão e ansiedade não são doenças de notificação compulsória, a Sesa afirma que não existem números de novos diagnósticos capazes de retratar com fidelidade a realidade capixaba. Os registros hospitalares também não representam a quantidade de pessoas que convivem com essas condições, mas mostram os casos que exigiram internação pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Em âmbito nacional, o Vigitel aponta que o percentual de adultos com diagnóstico médico de depressão nas capitais brasileiras e no Distrito Federal passou de 10,9%, em 2020, para 14,5%, em 2024, um crescimento de 33%. Entre as mulheres, o índice aumentou de 14,8% para 19,7% no período.
A relação entre depressão e sono também aparece na Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, realizada pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde. Entre os adultos que declararam diagnóstico médico de depressão, 48,6% apresentavam problemas frequentes de sono. Na população adulta em geral, o percentual era de 18,6%.
Após o ajuste por idade e sexo, a prevalência de problemas de sono foi 3,07 vezes maior entre as pessoas com depressão. O levantamento não permite concluir qual condição surgiu primeiro, mas mostrou que depressão e outros transtornos mentais estavam entre as doenças mais fortemente associadas às alterações do sono.
Sintomas semelhantes exigem atenção ao sono e à saúde mental
Insônia, sono excessivo, fadiga, irritabilidade e dificuldade de concentração podem estar presentes na depressão, mas também aparecem em diferentes distúrbios do sono. Por isso, a avaliação precisa considerar a qualidade do descanso, a duração dos sintomas e os prejuízos provocados na rotina.
“Nem toda insônia significa depressão, assim como nem toda pessoa com depressão apresentará a mesma alteração no sono. O alerta aparece quando a dificuldade para dormir ou o excesso de sono se torna persistente e vem acompanhado de mudanças emocionais e prejuízos na vida diária”, afirma Jéssica.
Em Vitória, 32% dos adultos relataram ao menos um sintoma de insônia ao Vigitel 2024. Entre as mulheres, o percentual chegou a 40,2%, enquanto entre os homens foi de 21,9%. O levantamento considerou dificuldade para adormecer, despertar durante a noite e não conseguir voltar a dormir ou acordar antes do horário desejado.
Entre os distúrbios que podem apresentar sintomas semelhantes aos da depressão está a apneia obstrutiva do sono. A condição provoca interrupções repetidas da respiração, quedas na oxigenação e pequenos despertares que nem sempre são percebidos pelo paciente. Mesmo acreditando ter dormido durante toda a noite, a pessoa pode acordar cansada e apresentar sonolência, irritabilidade, desânimo e dificuldade de concentração ao longo do dia.
“A apneia e a depressão podem apresentar sintomas semelhantes e também ocorrer ao mesmo tempo. Quem dorme por muitas horas, mas acorda cansado, ronca alto ou apresenta pausas respiratórias precisa investigar a qualidade do sono, e não observar apenas o tempo que permanece na cama”, alerta a médica.
Melhorar o sono pode integrar o cuidado, mas não substitui o tratamento da depressão. Da mesma forma, atribuir todo cansaço ou desânimo à saúde mental pode atrasar o diagnóstico de um distúrbio do sono. A suspeita de depressão exige avaliação específica, enquanto alterações persistentes no descanso também devem ser investigadas.
Texto: Giulia Reis
Foto de Capa Feita Por IA

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