Em ponto de fuga ou – How to escape mono tunes
Por Isabela Frade
Quem segue a coluna já leu algumas reflexões sobre paisagem e do compromisso de retorno ao tema. Hoje, ao visitar a mostra Escapismo, encontrei o pretexto perfeito: uma exposição aberta ao público e que aguarda, com energia pulsante, nossa presença, evocando o tema de maneira surpreendente.
E vale muito à pena ir vê-la. Primeiro pela oportunidade de conhecer Laerte Ramos, um nome do circuito da arte contemporânea e, depois, pela oportunidade de ver algumas das séries mais instigantes do artista. Para quem ainda não pode saber da OÁ Galeria, é um mimo, um delicado cubo branco instaurado na zona charmosa da Praia do Suá, em Vitória.

Escapismo abriga um desafio, é uma mostra que instiga. São vários jogos de imagens e referências, de cores e de palavras, planos e linhas, onde muitas linguagens se misturam. E tudo é muito delicado. Temos um desenhista soberbo, preciso. Ele aparece em várias situações, até mesmo em cadernos publicados. Esses são um tipo de arte zine sofisticada, nos deixando ver que cria com humor, dando também espaço para o espectador sonhar mais sobre aquelas pranchas.
Um livro de artista que contém muitas de suas formas-padrão ou, melhor ditas, de ícones gráficos que compõem seu léxico compositivo.

A esse desenhista se soma o gravurista que sobrepõe camadas em duplas criando uma espécie de caixa de dissonância: em Retroland planos de cor tratados em pinturas de paisagem são cobertas por seus desenhos gravados a laser e que ele nos deixa vê-las juntas – somando-se plenamente quando olhamos frontalmente – mas as separa em duas camadas distintas, através de hastes que fazem com que elas estejam fixadas uma a uma, mas com um espaço de intervalo contínuo entre elas.
É curioso porque tive o desejo de mordê-las, como se faz com biscoitos waffle, onde camadas dão sabor especial ao combinarem sensações.
Minhas papilas gustativas haviam sido ativadas, agüei. Provavelmente já provocadas desde a entrada da galeria com os painéis de lã de carneiro super coloridos. Identificados como wetfelting, os trabalhos da série Omen me evocaram o algodão doce, uma experiência que só tive quando muito pequena, em parque de diversão.

Por certo, também essa memória do parque está ecoando por minhas experiências vívidas da exposição, tudo devido aos volumes excêntricos, instigantes, de um puro branco luminoso em cerâmica esmaltada. Uma espécie de louça alienígena, Retroland, disposta em sequência por mobiliário num mesmo plano, criando uma paisagem estranha e bela.
Uma cidade liliputiana estrambólica? Edificações stalinistas talvez se aproximem desse tipo de coisa, mas elas superam em muito nossa imaginação por sua pequenez e, talvez, também por sua brancura.
E como fazer os olhos saltarem entre as tapeçarias e tecelagens de cores exuberantes e repousar nos brancos? Para nos ajudar no processo, temos Salvation, na trilha sonora disponível pelo artista. Sim, é isso, todos os sentidos desafiados, um cenário sonoro nessa passagem por entre universos tão díspares. E tem outros tons para cada cenário.

E ah, temos no segundo andar outras peças de séries mais antigas, seus trabalhos de moldagem trump d’oeil em replicação exata de tênis de corrida. Uma verdadeira obsessão em reunir vários exemplares de cópias de tênis, todos idênticos e perfeitos no seu modo replicante. Uma loucura feita em cerâmica.

É difícil de descrever, acho que me meti em apuros ao me aderir a essas obras, corro risco de tropeçar feio na sua apresentação, pois só uma das séries deixa a pista em seus títulos e abre de forma clara o seu sentido. É a própria série Escapismo, tema geral da mostra, agrupamento composto por 7 tapeçarias relativamente pequenas, todas medindo 47 x 56 cm e que atentam a cenários apocalípticos: #1Mira, #2 Vulcão, #3 Bomba Atômica, #4 Tornado, #5 Aurora Boreal, #6 Gêiser, #7 Meteoro. Evocações do fim do mundo, figuras de imaginação do extermínio.
Visões assombrosas de uma crise que se avizinha e que marcam o advento de uma nova Era. A série tem o subtítulo L.S.D. Longe sem Destino. É isso, deduzo: a alucinante visão do agora sem futuro.
Uma potência visionária, mas ao mesmo tempo madura e responsável no trato com os instrumentos; com precisão e contundência ímpar Laerte Ramos aponta elementos-chave na paisagem cultural da atualidade. Não é culpa dele que o contexto é recalcitrante.

Corre lá. É imperdível. A OÁ fica aberta de segunda a sexta das 10 às 19 horas e Escapismo segue até o dia 10 de fevereiro.

Doutora em Comunicação pela USP, artista e pesquisadora. Professora no Centro de Artes da UFES e no Programa de Pós-Graduação em Artes, atua na linha Interartes e Novas Mídias. Mineira de origem, com passagens pelo Rio e São Paulo, hoje vive em Vila Velha, dedicando-se ao desenvolvimento de poéticas relacionais e diálogos interculturais.



