Judicialização de direitos expõe desafios para valorização dos profissionais da educação

Judicialização de direitos expõe desafios para valorização dos profissionais da educação

Às vésperas do Dia Nacional dos Profissionais da Educação, especialista afirma que o cumprimento da legislação é fundamental para fortalecer a carreira e melhorar a qualidade do ensino

Piso salarial, progressões funcionais, enquadramentos, aposentadorias e outras garantias previstas em lei têm levado cada vez mais profissionais da educação a buscar o Judiciário para assegurar direitos. O cenário evidencia que, apesar dos avanços na legislação, a valorização da carreira ainda encontra obstáculos em diferentes redes de ensino e permanece como um dos principais desafios da educação pública brasileira.

O tema ganha destaque às vésperas do Dia Nacional dos Profissionais da Educação, celebrado em 7 de agosto. Sancionado neste ano, o novo Plano Nacional de Educação (PNE) estabelece a valorização dos profissionais da educação básica como um dos objetivos estratégicos do país, prevendo o fortalecimento dos planos de carreira, da formação continuada, do cumprimento do piso salarial profissional nacional e da melhoria das condições de trabalho.

Na prática, porém, especialistas avaliam que muitos desses direitos ainda dependem de cobranças administrativas e, em alguns casos, de decisões judiciais para serem efetivados.

Para o advogado especialista em Direito do Magistério Amarildo Santos, o grande número de conflitos envolvendo a carreira demonstra que ainda existe uma distância entre o que está previsto na legislação e o que é efetivamente aplicado pelos entes públicos.

“Quando um profissional precisa recorrer à Justiça para ter acesso a um direito que já está assegurado em lei, fica evidente que existe uma falha no cumprimento da legislação. A valorização da carreira começa justamente pelo respeito às garantias já previstas para esses trabalhadores”, afirma.

A importância desses profissionais também é reconhecida nas políticas públicas educacionais. O Censo Escolar, realizado anualmente pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), reúne informações sobre professores, gestores e demais profissionais da educação e serve de base para programas como o Fundeb, a alimentação escolar, o transporte escolar e indicadores que orientam a gestão da educação básica em todo o país.

Apesar disso, questões relacionadas ao pagamento do piso nacional do magistério, à evolução funcional, ao enquadramento na carreira e à aposentadoria continuam entre os temas mais recorrentes levados ao Judiciário por servidores da educação.

Na avaliação de Amarildo, reduzir a valorização da categoria apenas ao salário é um equívoco que empobrece o debate.

“A valorização envolve um conjunto de fatores. Plano de carreira, progressões, formação continuada, jornada adequada e segurança jurídica são aspectos que garantem estabilidade ao profissional e criam condições para que ele desempenhe seu trabalho com qualidade. Quando esses direitos deixam de ser observados, os reflexos chegam à escola e atingem toda a comunidade”, assegura.

O especialista destaca que a judicialização também produz impactos para a administração pública, que passa a lidar com demandas que poderiam ser evitadas por meio do cumprimento da legislação.

Segundo ele, a prevenção de conflitos é mais eficiente do que a resolução dos problemas apenas depois que eles chegam aos tribunais. Além de reduzir custos para os cofres públicos, essa postura contribui para fortalecer a carreira e oferecer mais segurança aos profissionais da educação.

“Valorizar os profissionais da educação é muito mais do que reconhecer a importância do trabalho que eles desempenham. Significa garantir que a legislação seja cumprida, que os direitos sejam respeitados e que esses trabalhadores tenham condições de desenvolver sua atividade com dignidade. Quem ganha com isso não é apenas o profissional, mas toda a sociedade”, conclui.

Texto Giulia Reis.