Yftah Peled e os Destinos de uma Cidade

Yftah Peled e os Destinos de uma Cidade

Por Isabela Frade

Nesta crônica abordamos a obra do artista Yftah Peled em cartaz na Oá Galeria, aproveitando esse momento que nos traz uma delicada e poderosa exposição. É um exercício que pede despojamento: os aparatos são poucos, só há o próprio jogo sensitivo a nos convidar a seguir pela passagem sem muitos direcionamentos, e a própria  presença do artista em suas dinâmicas de observação, sutis, instigantes e mais, transgressoras, visionárias.

A galeria é onde as vias de passagens e  suas paragens, – as próprias obras – nos fazem percorrer notas cotidianas de modo inusitado.  Passar pela mostra Se encruzilham os destinos? é seguir uma série de paisagens urbanas já conhecidas só que trilhá-las de forma diferente. Não apenas os nossos modos de ser cidadãos ou cidadãs são abordados, a própria cidade, Vitória, é ela a persona central em capturas a seus espectros considerados irrelevantes ou esquecidos e mesmo “mal entendidos”, mal enquadrados, todos agora mobilizados em seu detectado desejo de medida.

Na fricção sobre o ordinário e o novo, ambos no âmbito do já superficialmente conhecido, vive-se aqui um tipo de esfoliação da pele do olho, essa membrana que se opaca na atitude comum à apatia e ao conformismo. Processo com atrito, ardido. Por isso, essa pele nova do olho inspira em sua forma de pergunta à uma abertura sem fim, o limite é pessoal, dado ao que cada um pode encontrar no seguir o convite do artista. Há um saboreio permeando a tudo desde a performance gustativa Degustar Fantasmas na abertura (foi algo tão surpreendente que os que estiveram presentes nem sabem descrever!) .

Pensei em fabulações de um geômetra como um viés para adentrar na atmosfera poética desta exposição. Pois esse é o sujeito das medidas incalculáveis, o sensor artístico se espraiando pela urbe. Sua atitude frente à cidade se revela nuances inauditas, cuidadosamente calculadas em suas miradas mas extrapolando ao mais que se pode medir e contar. Há uma cosmogonia em jogo, fantasmagorias urbanas se tecem frente ao modus operandi frio e autômato de uma cidade moderna como é Vitória. E bem, claro, iniciei a exposição assim por ter sido levada a olhar medidas o tempo todo. Antenada a ver como os elementos estabelecem um campo imantado, alguns em seus duos de formas e ideias, gêmeos de conceitos, esses e outros jogos numéricos  das obras transbordam inquietude, energia por onde carregam nossos olhos e consciência. Não dá para falar de todas as jogadas aplicadas na mostra por sua  complexidade.. Fiz uma seleção das que me pareceram mais estimulantes ( e talvez possíveis)  ao relato.

 

Comecemos por aproximarmo-nos de uma parede. (!!!) Pois é, pela parede, ela mesma como objeto capturado, superfície à qual o artista insere um aparato que lhe confere espessura. Yiftah aplica uma ferramenta que dá ali um aperto,  como instrumento para medir sua espessura. Na real, um adipômetro (instrumento curioso para quem é absolutamente magro). Para nosso delírio, o artista mensura ficticiamente essa adiposidade da própria galeria, já nos surpreendendo enigmaticamente. E tudo inscrito nesse retângulo desenhado na parede da galeria, o seu quadro, louco e elegante. Fiz uma foto em detalhe para que possam vê-lo .

 

Sigo à sua frente e vejo algo como uma esfinge e agora já nos sentimos mais à vontade, quando começamos a perceber que se trata de um jogo, um desafio aos nossos sentidos e entendimento.  A essa primeira provocação bem humorada, observamos que, na mesma condição, temos um cubo e uma trave, ambos de mármore branco. As três instâncias – parede, cubo e trave –   sofrem esse exame de adiposidade. Estranha mania, pensei. De certo modo ele estaria a fazer isso com tudo ao jogar criticamente com nossa condição de consumistas compulsivos, e sobre os excessos que se acumulam em nossos corpos e espaços.

 

A gordura é o que poderia, em nosso organismo, proteger e aquecer. Ajudar a enfrentar o frio, o impacto, o ressecamento. Mas, inversamente, a gordura significa excedente, usura. Esse geômetra artista reverte as figuras, mede paredes que, de repente, são moles e se deixam beliscar. O que exatamente está sendo implicado aí? O cubo, um dos elementos primários de uma geometria aplicada. O que se mede está constituído em seu estado físico: A forma contém a ideia.

O mármore,  essa pedra tão desejada pela escultura clássica e marcadora do cânone renascentista, dura e lindamente branca, de repente vira gordura, excesso medido por um de seus vértices. Há um humor lacônico em nos recordar a égide dos corpos sarados que se afirmam sobre nós. E seria possível então, a esse exorbitante ensejo, que em nossa sociedade a obsessão pelo corpo perfeito recairia também como uma maldição sobre nossos objetos?

Yiftah me faz recordar dos processos tradicionais da escultura e como regularmente medimos ao construir um objeto tridimensional. Na sociedade subjugada pelos aparatos de tela, recobra o vigor da vibração de uma obra enquanto um objeto real e emociona especialmente aos adeptos da corporeidade. Isso não se dá ao nível trágico-romântico, a situação é engraçada e me leva para um estado mordaz. O artista insiste para que sigamos no papel de observador e tento manter essa distância reflexiva.

Retomo o passeio já em estado de estranhamento, livre ao que me indica um aspecto insólito de uma outra obra. A esfinge, a Polisfinge, a seu lado, me fere o olhar pela interpelação pungente ao seu sentido. Sua efígie é bela em seu dourado brilhante. Mas também é desengonçada, estapafúrdia. É o produto da metamorfose aplicada a uma viatura de polícia em meio a se transformar em uma esfinge – ou o inverso? – magem capturada no processo intermediário, quando uma coisa ainda não é outra. Paradoxo da transmutação, capturada em seu estado médio.

Uma figura recorrente na cidade violenta, o camburão da polícia se instaura como uma narrativa a ser revisada. A obra se inscreve na biografia  da cidade quando, em fevereiro de 2017, a crise de segurança pública subiu a níveis alarmantes. Foram aproximadamente 200 homicídios em 22 dias, período em que a polícia se manteve em greve. Agora, o fato é simbolicamente transformado em ouro ou, melhor, bronze. É bela e divertida, numa combinação excêntrica, fulgurante. Dela há, ainda, uma versão pequenina, essa de parede, colocada sobre uma prateleira.

Seu protótipo? Seu duplo miniaturizado? A segunda quase-esfinge Mini Polisfinge, disposta sobre uma prateleira miúda, extrapola ainda mais. O fato nos remete a um conceito muito comum em abordagens psicanalíticas, onde uma réplica atua como miniatura para criar um mundo alternativo, proporcionando uma perspectiva alterada. Essa pequenina trata da Vitória liliputiana. Algo mínimo que pode mudar tudo e explica um monte de coisas que vivemos: o medo das ruas, a violência abafada pelos rígidos protocolos de segurança, a frágil situação do cidadão imerso em tramas imperceptíveis da política de vigilância.

Em sua pequenez, apela ao que a faria grandiosa, pois é o protótipo de um monumento, algo que se fará realidade em qualquer boa oportunidade – quem sabe se não veremos no futuro aqui em Vix essa escultura em tamanho real, encapsulando as formas de uma viatura concreta? Em uma daquelas peculiares abordagens do artista, a mostra Se encruzilham os destinos? retoma um grave evento mas sem desilusões: O destino ri de sua própria indeterminação e fragilidade, da incapacidade dos poderes civis de garantirem alguma placidez burguesa que não seja pela força bruta.

Como motivação de seu percurso investigativo  Yftah Peled mensura a cidade poeticamente a partir de táticas diversas. Ele me faz estranhar o comum a cada passo. Como um  “artista situado” termo que aqui busca dizer o que é atitude e gesto de quem se inscreve em um determinado sítio; no caso, a nossa cidade, seu objeto de referência.

Parei diante de um quadro de metal recortado em uma trama visual e recoberta em um cinza muito escuro, resultado do minério de ferro recolhido e misturado à tinta que o artista elaborou. A obra evoca a cultura capixaba, representada na trama visual ilustrada com ramos de coentro. É como se o artista reunisse o melhor e o pior das referências com as quais vivemos. O pó de minério que envenena e, lado a lado com o seu oposto, o tempero das iguarias locais, erva medicinal.

 

Docente universitário e artista pesquisador; a mostra revela uma faceta importante dessa prática profissional da arte de Yiftah e sua paciente e elaborada curva de produção. Em um percurso contínuo, segue falando da cidade como em outras exposições que participou, como na mostra individual no MAES, em 2022:Os sonhos de quem estamos sonhando?  Ali a cidade entrava de modo explícito em suas distintas paragens: a praia, a rua, o céu, suas edificações. Hoje, a desmedida se impõe, até o chão é palmilhado neste movimento de absorção do tecido humano de Vitória. É interessante que uma pessoa tão sensível à capital capixaba seja um imigrante judeu humanista, pacifista e decolonial. Na cidade pensada por Yiftah devemos caminhar mais atentos aos movimentos alheios, não perdendo a noção do contexto global, mas sem deixar de segurar o vínculo umbilical que coloca o artista na condição de observador de uma cena local.

Aguda crítica ao que deixamos de viver por estarmos presos a um sistema regulatório de proficiência a uma mecânica mental, o artista nos provoca em movimento retrógrado: rever cenários já vividos para recuperar o sentido de existência, de memória, de ato comunitário. Assim, as folhinhas do coentro,  o tempero mais regional, são motivo de uma série de operações. Nesta mostra, temos dois quadros que contêm essa referência através de uma trama recortada. Um deles é como um cortinado ou uma veneziana mourisca de metal que, em olhar conspícuo, pareceria que eu poderia ver algo íntimo, mas sou surpreendida por uma imagem de um disco voador: Era o externo a ser espreitado! A obra, é  Malha Coentro/Minério, de 2023.

Outro trabalho também traz o tema do aeroespacial em uma coluna divertida. O título Tag/Nave entrega: é um pin de segurança !! Esse objet trouvé desconsidera sua origem e é remetido ao status de lenda urbana: – “Era uma vez que eu acordava e via que a cidade inteira havia sido invadida pelos extraterrestres!”. Desde modo se dá a fábula futurista que envolve as partes abandonadas de uma famosa edificação no topo de um edifício na avenida Reta da Penha. Era para ter sido um restaurante giratório, mas ficou para a história como mais um daqueles planos espetaculosos que não decolam. Manteve-se como ficção. Um disco voador a ser, agora, escultura.

Minha peça preferida: as fotos que compõem uma zona de atravessamento de pedestres, Encruzilhadas. Mostra o desenho de uma economia de passos especialmente animada pelo desejo de pisar na grama, algo agora quase sempre proibido, mas que segue a ocorrer na força do hábito. As vias são multiplicadas pelo jogo de repetição, inversão e justaposição em estratégia de colagem, o que cria uma interessante área de circulação avaliada. É muito sutil. E me parece que daqui surge o título para a mostra e toda a estratégia expográfica.

E a bonequinha de palitos de fósforos dourados? Talvez pela redução drástica de relações antropocêntricas, Fosforou é um ponto de atração considerável. É outra peça que brilha intensamente através de seu bronze polido. Ao nos aproximarmos dela, vemos que essa relação anímica é muito tênue. Essa pseudo boneca nos deixa em suspenso, incontida nos desígnios projetados pelo espectador. Há uma depressão na parede logo atrás de sua “cabeça”, mas o que isso quer dizer? Ou nada e é apenas um modo de fazê-la aparecer mais solta no espaço? Não posso esquecer que essa é uma mostra de um hábil escultor.

Na desconjuntada colagem de fotos de uma coluna em restauração, Peled absorve a guia vertical do espaço da galeria. É um gesto artístico premente: é como se quebrasse a espinha da coluna central do salão. Fra(fu)tura é tipo uma geringonça: uma colagem meio desencontrada de imagem a imagem, toda em preto e branco.  A sequência de fotografias é resultado de uma viagem à Salvador, em um sítio de recuperação arquitetônica colonial, por uma ocorrência não planejada, uma vista dada ao acaso. São os takes dessa coluna que estão lá na galeria, criando vertigem na proximidade entre cidades (Salvador/Vitória). Estabilidade precária, que me recorda da fragilidade de tudo e, paradoxalmente, vejo o artista me remeter no repuxo ao jogo. Essa dubiedade entre fantasia e veracidade, as duplas medidas e trajetos inusitados, as múltiplas camadas de uma disposição à vida em uma cidade na qual devemos estar mais fluidos, permeáveis às ocorrências que nos rodeiam.

São muitos os veios de significado e experiências contempladas em cada uma das obras. Impossível caber tudo aqui e, obviamente, não há substituição para esse enfrentamento diante da obra. Aqui estão apenas algumas de minhas próprias visagens. Desejo que você vá em busca de suas mais abertas percepções.

Antes de concluir, porém, toco na mais provocativa das esculturas: um caminhãozinho que replica, em sua natureza de brinquedo, o recém inaugurado Centro Cultural Cais das Artes, uma das arquiteturas “discutidas” na cidade, especialmente por seu brutalismo brutal (pleonasmo necessário). É a obra Caisminhão. O título é definitivo assim como a forma de sua carroceria é explícita. Este objeto/escultura/instalação é prioritariamente apresentado por um caminhãozinho com a carroceria pintada de tinta dourada. Mas atenção: nada de artesanato expressivo. Tudo é milimetricamente executado na manipulação dos materiais, aproximando-se da fatura industrial. Provavelmente modelado em uma impressora digital. Indefectível. Observo ainda o troféu que faz parte da instalação. É o Prêmio Arquiteto Brutalista, de 2026. Uma exagerada chupeta!

É o dourado da carroceria o aspecto simbólico no centro dessa obra: esse “ouro” que implica o encarceramento da política e que, muitas vezes, escraviza o artista, assim como aprisiona a arte nas grandes celas de proteção museológica. O artista lembra que há outros modos de viver a arte. Aliás, um outro estado de colher uma arte viva. Essa visão pede  desprendimento para atingir um estado de conexão, sem um programa de percurso exatamente, mas para sentir o chamado ao encontro com a aura da cidade.

E OS DESTINOS DE UMA CIDADE?

O artista ensina outro caminhar para atravessá-la, traçar novas rotas, retirar o véu dos excessos de luzes e vontades, descobrindo as franjas da sociabilidade inscrita  no espaço urbano; praticar o ato de permanência em alguns sítios ou mesmo na passagem, percorrendo suas/nossas ruínas com mais humor e, assim, ou talvez, essa vivência da cidade prosperasse. E para que, finalmente, pudéssemos amá-la. Pareceria, inclusive, ser peculiar que um estrangeiro faça esse convite. Eu aconselharia seguir essa convocação. Afinal, como pode a arte nos fazer estrangeiros em nossa própria cidade e olhá-la com curiosidade?

Vale a pena dar uma passeada na cidade capturada por Yiftah e redimensionar suas próprias experiências na trama urbana.  Pode ser transformador adentrar em uma ambiência crítica dessa natureza. Para isso, a mostra pede permeabilidade às novas formas da paisagem social.

A Oá Galeria fica na Praia do Suá, na rua Cezar Hilal, no 1180, loja 9 e está aberta de terça à sexta-feira, das 9:30 às 19:00 h. A exposição fica até 10 de agosto. Não perca.