O crime do momento

O crime do momento

Por Isabela Frade

Por Isabela Frade

É esse o crime do momento, mas o drama não é atual: estamos matando a vida no planeta em ritmo cada vez mais acelerado. Já passamos do ponto de não retorno em certas zonas da Terra e nosso próprio futuro está em jogo. O aquecimento global é uma realidade e os estudos científicos se voltam para buscar mitigações, soluções de “como conviver com o problema” como sugere a epistemologia de Donna Haraway, filósofa, como caminhos a pensar o horizonte existencial já comprometido. Aliás, a maior dúvida agora é: haverá futuro?

No limiar do colapso, nosso intelectual indígena Ailton Krenak, ativista, líder político, educador, artista e escritor propôs Ideias para adiar o fim do Mundo, publicado em 2019. As lições que se seguem sob essa obra de Krenak, um pequeno mas poderoso livro, disparam como flechas no coração da cultura ocidental: “como é que, ao longo dos últimos 2 mil ou 3 mil anos, nós construímos a ideia de humanidade? Será que ela não está na base de muitas das escolhas erradas que fizemos, justificando o uso da violência?”

Ao examinar essa categoria abusiva – a Humanidade -,  que serve como álibi para os maiores descalabros do furto, de ocupação, da submissão de gerações à escravidão eentre outros tantos atos violadores e, por fim, do crime; mas sendo assim, ela, a Humanidade, um emblema que, no fim das contas, nos pode parece vazio ou negativo, por que nos atamos tanto a ela? Se  servia como plano de união e fraternidade, hoje seus apelos são para a guerra, para a supremacia, toda uma torção restringindo seu escopo. De minha parte, ainda acredito nela e, em especial, no caminho que as Humanidades (no plural!) criaram através da arte, da história, da antropologia, da ciência em um modo geral. Não entendo que tudo é nefasto. Não podemos, entretanto, ser cúmplices.

Vejam, em particular, esse calor infernal. Como respirar ao sair pelas ruas, onde estamos quase a desmaiar? De minha parte, sigo pelas sombras das poucas árvores que ainda restam e rezo pelas chuvas. Isso só até a hora em que o toró chega, e me assustam os riscos do alagamento. Pensar em aquecimento progressivo me deixa mal. Não sei como será realmente e sim, será pior, mas como vamos sobreviver em agravamento? Criar bolhas maiores que os nossos cantos no ar condicionado? Mudar para as altitudes? Angustio.

Krenak diz que, seguindo assim, vamos derreter no asfalto, virar massinha. Mas ele  tem uma solução: ir para a floresta, ou melhor, fazer floresta, viver em florestania. Reverter esse paradigma do civilizatório e da fissura de separação da humanidade, criar confluências com a natureza, ser natureza: – “Deveríamos admitir a natureza como uma imensa multidão de formas, incluindo cada pedaço de nós…”…  Essa lição é boa: a ideia de humanidade nos separa da natureza. E como resgatar esse vínculo: “Devíamos admitir a natureza como uma imensa multidão de formas, incluindo cada pedaço de nós…”(Krenak, 2019).

É sobre esse projeto que se organiza a mostra de arte PARA ADIAR O FIM DO MUNDO orquestrada por Paulo Herkenhoff, capixaba da gema que vive no Rio e faz sucesso pelo mundo das artes afora, convida nosso imortal (Lembra, Krenak é da Academia Brasileira de Letras) para o exercício curatorial em parceria. O diálogo absolutamente poderoso entre esses dois intelectuais reúne obras de artistas brasileiros e estrangeiros sob um auspício: salvar o mundo. E a arte embarca no sonho, no mito, na razão, no rito, na imagem técnica, na imaginação construtiva. Alguns denunciam, outros rememoram; alguns coletam, outros reproduzem. E assim seguem inventando processos e linguagens, aventando outros mundos.

São todos artistas potentes, organizados e postos em relação; trazem vigor consigo, independentemente da idade e tempo de atuação, pois quem é velho ali esbanja frescor, assim como os mais jovens detém maturidade e rigor. E tem resgates de outros mais antigos, modernistas revigorados. Tudo muito bom. É puro alimento para a nova humanidade poder rever-se e vigorar. Fui provar e preparei uma degustação atravessada por potências mágicas e míticas.

Uma das delícias para meu saboreio foram as abundantes cerâmicas que denotam a abertura para uma linhagem de cerâmica contemporânea entre os seus mais requintados aportes. Estão exuberantes e ricas. Simplesmente deliciosas. Começamos por Tunga, trazendo um prato com um ser bicéfalo, o duo de lagartos onde um possui duas cabeças e o outro, seu reverso, duas caudas, representação naturalista em moldagem em porcelana esmaltada, super brilhante. Criação inspirada no ceramista portugues Bordallo Pinheiro (1846 – 1905) e produzida na sua fábrica em Vista Alegre, o objeto possui qualidades técnicas de excelência. É como ter o melhor dos mundos, porque a genialidade artística de Tunga é atributo inigualável.

 

 

O trabalho nos deixa em suspenso. É um prato mas também uma escultura, é Tunga mas também Bordallo, é ainda um duo  de pequeninas aranhas, ali estáticas como vítimas a serem devoradas pelos lagartos cabeça-cauda em remissões contraditórias. Tunga denomina essa obra de Transbordá-lo, criando mais um jogo de relevância sobre essa espécie de gozo das ambiguidades. O título é uma justa homenagem ao ceramista que não obteve grande sucesso como artista. Tunga, ao contrário, tendo atingido o ápice (também já se foi, falecido em 2016), ainda segue produtivo em sua fábrica de moldes, assim como as peças de Bordallo; são artistas sobreviventes à própria morte, algo também assombroso. Há muito sob o espectro dos répteis comutantes.

Convido a seguir para um outro prato, no sabor amargo que nos traz Luiz Zerbini, carioca dedicado à pintura e suas expansividades. A obra traz a figura de um pequeno peixe a se desesperar em água contaminada, a sufocar em lama tóxica. O artista nos relata em breve texto sobre o impacto ao presenciar o envenenamento do Rio Doce no desastre de Mariana em 2015. O Crime, de fato. “Ficou a imagem de um rio que era doce, agora na cor vermelha do desastre, com peixes mortos boiando na água suja. Era esse o crime do momento, o drama mais atual”, rememora Zerbini, trazendo à mostra o seu peixe em Rio Doce, de 2019. Triste, mas verdadeiro, pungente em belíssima faiança esmaltada. A ele dedico esse texto, dada a admiração pela sua trajetória e seus mais recentes movimentos em direção a um engajamento socioambiental profundo.

 

 

E segue o banquete, essa festa sensório-conceitual que afaga a pele dos olhos de modo ardente, vivaz. E a boca também saliva assim como a pele arrepia em muitos contatos. Pelos eriçam enquanto podemos seguir provando agora a tecnologia da imagem com o vídeo de Hal Wildson em Utopya: Refloresta imaginada, 8 minutos do reino amazônida onde as águas são caminho por onde a civilização continua (aqui temos poucos segundos, um breve provar). Uma bandeira tremula, nosso lábaro ostentando um novo dizer, clamando o caráter nacional a ser reimaginado. Ao lembrar da  luta pela preservação do rio Tapajós, clima deste exato instante em que escrevo, dá para sentir mais intensos seus tremores: A bandeira vibra dentro de mim.

(vídeo de Wildson)

 

Em saboreio das instalações, seguimos à grande Ana Maria Maiolino, estrela da última Bienal de Veneza, quando recebeu o Leão de Ouro. Melhor impossível. Diante de tudo o que vejo dela nos livros, nos catálogos, encontrar as suas “rosquinhas” é puro êxtase (e, meus deuses, que ela não saiba desse apelido dos apetites, jamais aceitou representar algo com suas modelagens em argila!). Estão dispostas em conjuntos  denotando processos de trabalho sobre a massa, abertas sobre uma mesa simples de cavalete, coisa de ateliê que vem para a galeria. Bem, na verdade, está no hall, a mostra extravasa. O hall de entrada já foi tomado em algo mais que um salão de exposições.

É modesta, pequena, mas para quem a conhece, deve ter sentido o mesmo bater intenso da pulsação. Sim, ao vivo em muitos tons de cinza a obra Estudo para uma instalação, bem ali, ao lado, dá para sentir cada milímetro. Executada em 1993,  chega a 2025, quando reativada. Assim se entende sua datação (1993 – 2025), espaço tempo que vai sendo alargado em obra, coisa bacana da arte contemporânea. Entre tantas outras instalações midiáticas e obras multicoloridas, como podem ver, se alçam as pequenas peças de um fazer manual arcaico, italianíssima produção das massas que Ana traz para abstrair por formas em série, mas sem deixar de  acionar a fome, das agruras femininas, do labor para sustentar a vida.

 

 

E, se vamos ao mais surpreendente, temos o assentamento para Ogum de Thiago Martins de Melo. Impressionante escultura de 260 x 130 x 170 cm feita de fibra de vidro e coberta de resina escurecida, pintada com um cinza chumbo escuro, denso, com fios de um vermelho escorrido desde o topo, como se ali muito sangue tivesse sido derramado. Traduz o universo de encantamento das raízes africanas no clamor à divindade da guerra: Ogum, Guerreiro para as lutas do Sul Global de cujo poder precisamos urgentemente. É belo esse escorrido vermelho fulgurante que desce por todo o corpo da obra, imagem das forças sagradas que pedem vida. Reconhecemos a pá, as facas, a ave sacrificada, o sangue em ritualística evocação. Os deuses também desejam, querem provar.

 

 

E claro, tendo Krenak na curadoria, vemos muita arte indígena. Trouxe aqui o prodigioso Jaider Esbell, pintor macuxi que faz parte da geração de artistas indígenas contemporâneos, marco na superação de barreiras gigantes entre nossas culturas. Infelizmente, perdemos Jaider em 2021, mas ele nos deixou um legado fecundo, estupendo. Temos aí uma beleza que eu não conhecia.  Meus olhos ardem, é picante como damorida (sopa macuxi de peixe e pimenta ou melhor, de pimenta e peixe… rs). E muita saudade, observei que esta é uma de suas últimas pinturas.  Éramos amigos. Nesse momento Jaider pintava os seres encantados, os terríveis Kanaimés e outras criaturas míticas. São seres que vivem no espaço de outra dimensão e tem imenso poder. Essas obras são imagens-encantamento. Clamam por justiça e defesa das terras indígenas, requerem poder. Traço característico da produção de Jaider,  constante no vínculo à cosmologia macuxi e às noções de corpo expandido, espírito e floresta-sideral. Aqui a tela nos traz A Floração da Samaúma. A árvore gigantesca, a maior da floresta. Só quem esteve sob uma potestade dessas na florada sabe o que é a chuva dourada, na descida em giro de suas pequeninas flores, estrelinhas que vão pouco a pouco desenhando um tapete na sua base e, com isso, veja o encanto: se pode sentir a dimensão do diâmetro de sua copa. Sabe onde tem? No Jardim Botânico do Rio e, pertinho do chafariz central, fica uma enorme.

 

 

E, para não fazer spoiler de toda a mostra, intensa e rica viagem ao mundo das formas exuberantes, vou deixando só o gosto de uma pequena seleção dessas maravilhas no meio de outras tantas mais. Entretanto, ainda, preciso dizer que não deixei de notar os atravessamentos no tempo que admitem um pintor  moderno como Guignard a artistas expoentes, como Cristian Cravo, fotógrafo, quando cada um é tomado com aporte  vigoroso. Esse é o tempo da arte. E outro aspecto: ali não temos não somente obras, em certos locais, como ilhas espalhadas pela galeria e hall, distribuíram muitas plantas, reduzidos ambientes de mata, microcosmos de salvação. Vejam ao fundo do registro fotográfico a tela sensacional que Guignard fez em Ouro Preto, talvez a mais bela dentre todas as suas pinturas. Divino.

 

 

Agora vamos ao doce supremo, à A Terra Azul, de Yves Klein. Não sei se todos conhecem Klein, mas esse francês inventou uma cor – um  azul – e saiu pintando por aí. O próprio azul é obra e, quando assimila alguma coisa, a transubstancia em algo além da ordem, a fazendo extraordinária. Tal é assim o globo que, sob esse azul fulgurante, nos traz a Terra, esse planeta azul de verdade. Está protegido dentro de uma caixa de vidro; aliás, é um acervo não declarado e, é mister notar, a obra vale uma fortuna. Vale mesmo. E vale, para nós, seus amantes, a viagem ao Rio para vê-lo. Klein chegou a patentear a cor, denominando-a IKB (International Klein Blue). Artista magnífico, criou muitas outras obras magníficas: a ele é atribuída a origem da performance, modalidade contemporânea de linguagem, experimentou a action painting, a abstração plena com admissão do vazio como matéria, a arte impressa conceitual, com notícias em  jornal. E mais, e mais … No entanto, já temos o que exultar: o IKB já é todo um universo.

 

 

A mostra PARA ADIAR O FIM DO MUNDO está em cartaz na Galeria FGV Arte até 21 de março. O local fica próximo à estação do metrô do Flamengo; são apenas poucos passos em vista bonita para a Praia do Flamengo. A Fundação Getúlio Vargas é uma instituição poderosa na formação de economistas, administradores, advogados e é uma ótima notícia que Herkenhoff tenha conseguido fazer de uma ex-livraria uma galeria, abrindo um novo espaço de arte contemporânea na cidade maravilhosa. É tudo de bom. E não poderia ser diferente. Herkenhoff é excelente curador. E faz peripécia ao compor a discutida decolonialidade/contra-colonização  com aspectos do circuito internacional. Essa coleção que ele traz e brinca em relacionar com elementos naturais, em se aproximar de Krenak, outro gênio, cruzando arte, artesanato, ritualística, design e poesia é um desafio à descrição. Abusei dos superlativos porque foi como consegui lidar com as sensações impactantes e evitei abordar os artefatos indígenas porque entendo que esses objetos pedem um olhar mais específico.

Com certeza vou voltar lá, seguir sentir-pensando todo o material da mostra. Ali a dupla Paulo Herkenhoff e Ailton Krenak projeta um poderoso agenciamento de obras como antídoto, via para a construção de modos possíveis de abrir nossos olhos e mentes para o desastre iminente, para tentar parar esse crime hediondo e louco que é ferir a Terra e nos matar a todos, em ecocídio. Ou  ainda, e pelo menos, nos fazer acreditar que é possível adiar o fim do mundo.

Vejam, por fim, a agonia na fotografia de Cristian Cravo.