A festa da carne
Passamos dias felizes celebrando, passeando, namorando, bebendo, comendo e pulando rs tudo isso junto ou algumas dessas alegrias e prazeres. No pior, ouvimos que era uma “festa diabólica” como se a licença de festejar e gozar fosse apenas pecado. O que em hipótese nenhuma podemos concordar pois, afinal, é uma celebração organizada pelo calendário católico. Depois do carnaval, serão 40 dias de intervalo para a Páscoa, a Quaresma, onde se revive a paixão de Cristo. Nos 3 dias antecedentes, é tempo demarcado também, sendo o período dedicado aos “prazeres da carne”.
O carnaval vem da expressão latina carne vale, o “adeus da carne”, no período antecedente ao tempo de restrições e jejum religioso, quando a algazarra é o tom geral. Se alguém acha que balbúrdia é pecado, então está aí a condenação da liberdade e da licença, do intervalo do trabalho produtivo, quando o corpo se dedica ao prazer. Ainda que os filólogos debatam essa etimologia, o sentido simbólico permanece fértil: o carnaval promove a suspensão provisória das normas, dos excessos permitidos antes do período de contenção da Quaresma. Não é apenas uma festa, mas um dispositivo ritual de inversão, onde hierarquias, papéis sociais e contenções cotidianas se tornam maleáveis. E por que no Brasil essa é a maior festa? Por que costumamos dizer que é a “nossa cara”? O que o Carnaval pode operar, como um dispositivo simbólico, sobre o nosso modo de ser?

Agora, escrevendo nas cinzas, vou buscando motivações pessoais para refletir sobre a festa. Recebi a família, desfilei na avenida, li um livro, fui à praia e ao parque de diversões, ao rolê no shopping, breve viagem a parque estadual, fui degustando cada uma das delícias desse intervalo. Tomei muita cerveja e acompanhei os desfiles, agraciada pela homenagem ao cãozinho Orelha, vítima recente de uma violência brutal e sem respostas. O clamor- Justiça por Orelha! – foi apresentado em um carro multicolor da Mocidade Independente no Rio de Janeiro. Foi um dos momentos mais emocionantes dessa passagem de formas e cores vívidas que se apresentaram nas ruas. E veio o Orelha lembrado em vários cãezinhos na alegoria com Rita Lee… bicho fofo assim purinho, como segue continuamente representado como um anjo, criatura inocente morta à pauladas por jovens em diversão macabra.
Outra surpresa boa deste Carnaval foi ver nosso Lucas Pinheiro Braathen renascer como esportista, ganhar medalha de ouro nas Olimpíadas de Inverno e sambar na neve. Já tinha sido um deslumbre o desfile da nossa comitiva na abertura com aquelas roupas incríveis na alegria de … um bloco!
Como em todos os anos, vimos as ruas serem tomadas por ricos e pobres, todos juntos, vimos velhos e jovens, vimos lindos e feios, vimos gringos, patotas e comunidades, e muitas diferencas de gênero e identidade se revelando em fantasia. Durante o Carnaval, o corpo ganha centralidade. Corpo que dança, que sua, que se expõe, que se mistura. Corpo que deixa de ser apenas biológico para tornar-se corpo social e estético. A música, o ritmo e o movimento constroem um campo sensível compartilhado onde a individualidade se dissolve parcialmente em uma vibração coletiva.

Essa experiência, no entanto, que parece pura bagunça, ao contrário, não é caótica: ela é ritualmente estruturada. Há regras, calendários, territórios, códigos visuais e sonoros. Há desejos, há intenção, há grupos organizados, filiações, instituições e, como destaque, escolas. O que o samba nos ensina? A escola de samba é, em si, uma instituição cultural, um território de formação sensível, técnica e coletiva. Ela constrói comunidade. Ali se aprende que ninguém desfila sozinho: cada corpo integra uma engrenagem maior. Aprende-se identidade, memória do bairro, vínculos intergeracionais, reconhecimento mútuo. Entendi isso na própria pele.

Cada enredo é uma construção simbólica. Aprende-se a contar histórias por meio de imagens, cores, alegorias, dança e música. É dramaturgia visual em escala monumental. Durante o desfile, o cotidiano é transfigurado.
Vemos enredos sobre a nossa história, como personagens comuns ganham protagonismo ou, ao contrário, personalidades distantes se fazendo narrativas humanas, próximas, cheias de afeto e emoção. O sujeito comum torna-se personagem, mito, símbolo. Aprende-se que identidade também é performance, invenção, jogo. A identidade social é performativa, pode-se ser mais e melhor se o desejo for a tônica.
E temos os blocos, grupos de brincantes, sujeitos felizes e ruidosos a passarem em bandos a cantar e dançar. Mais livres que a escola, irreverentes, ousam sempre mais. Há o amor livre, sem freios, há gente que vai ali “só para beijar”. Muitos casais se formam, outros se separam, na disputa pela vibração libidinal acelerada, maximizada. Os que não querem bebem, fazem pilhéria e criam descontração. Há de tudo. Isso e muito mais. Uma profusão de gente se aquecendo e perdendo o juízo. Afinal, nem tudo é labuta e, talvez, seja o diabo aquele que não pula e reclama, fazendo da vida uma lamúria. Um pobre diabo, afinal, digno de pena.
E, por falar em diabo, muitas vezes confundido com o orixá Exú, para terminar assim em êxtase sacrificial e ritualístico, lembramos que a festa também possui forte herança afro diaspórica na mais incrível cena que vi nesse carnaval: a oferenda com velas, cachaça e flores vermelhas, farofa na ante sala do desfile, alinhado aos tambores na espera para a entrada na avenida. Divindade com vínculo aos prazeres terrenos, é claro que é presença marcante em nosso sincretismo. Na disputa de narrativas de origem, o Carnaval também é cenário. Há quem diga que é bacanal, outros dirão festa de santo de terreiro. Que tal assumirmos que é tudo isso e também festa do Capital? Os milhões das fantasias, as celebridades tomando o palco refletem agora na presença de Dolce & Gabbana que fazia o quê no desfile da Unidos da Tijuca? Será esse o capeta? Deixo vocês com o encantamento:
- Laroyê!

Mas ah..! Apenas mais um pouco, é ainda feriado, a preguiça está também como parte disso. Preciso ainda comentar as outras fotos: na primeira a montagem da Itacibá com seu emblema, o beija-flor; na segunda sua porta-bandeira e o mestre sala, Delma Vieira e Daniel Fraga, casal que ganhou nota 10 com as respectivas fantasias de Paraguaçu e Diogo Caramuru, o primeiro caso de amor interracial no Brasil; e, depois, aquela bruxa, que sou eu; parte de mim que adorei expressar no desfile da A. R. E. S. União Jovem de Itacibá.
Fui com a comunidade de pé no chão, aprendendo com a escola como pode ser lindo estar vestida de alma da literatura nacional. Uma samba enredo delicado e, como sempre, verdadeiro. No refrão, a frase destilada, o ouro: – Balança, que o samba é uma herança.


Doutora em Comunicação pela USP, artista e pesquisadora. Professora no Centro de Artes da UFES e no Programa de Pós-Graduação em Artes, atua na linha Interartes e Novas Mídias. Mineira de origem, com passagens pelo Rio e São Paulo, hoje vive em Vila Velha, dedicando-se ao desenvolvimento de poéticas relacionais e diálogos interculturais.



