Depois Que Tudo Foi Dito, Vem O Tempo Negro

Depois Que Tudo Foi Dito, Vem O Tempo Negro

 

39º GRAUS – o verão já está próximo e a temperatura se aquece com Diane Lima, curadora do atual Panorama da Arte Brasileira. Pois é, estive em Sampa e pude conferir as presenças dessas obras que fazem a marca mais premente da nossa arte emergente. É sua 39º edição e sua história é longa, desde 1969 o Museu de Arte Moderna de São Paulo apresenta a coletânea que opera como um termômetro da arte contemporânea brasileira. Sua estrela, um artista dito naif, louco e divino, quase profeta, é Moacir Soares de Faria, habitante do cerrado goiano da Chapada dos Veadeiros que agora recebe as bênçãos do circuito de arte. Vê-lo em conjunto orquestrado com artistas de diferentes calibres e sob a perspectiva dessa crítica curatorial faz muita diferença.

Diante da frágil economia nacional que caminha na estreita linha entre as demandas sociais e as exigências do imperialismo norte americano, artistas tomam posição e criam cenários pungentes para falar de tudo o que é nosso. “Depois que tudo foi dito”, tema deste Panorama, cria um clima de pós-tudo e, como denuncia,  carrega o peso das muitas camadas de discursos teóricos que pensam e, quase sempre, ditam a arte. Mas, atente, não é negar a palavra. Na verdade, a mostra apresenta seus também belos textos. Estão reunidos em um catálogo composto por palavras bem depuradas sobre cada um dos 33 artistas e seus trabalhos.

Diane Lima incita o público a reconhecer uma crise no interior da própria arte brasileira. É taxativa ao apontar o que se apresenta como uma nova estética na virada decolonial demarcada pelo feminismo negro. Essas novas configurações aparecem como fruto dos Estudos Culturais em suas mais recentes vertentes decoloniais/  pós-coloniais/ contra coloniais/ descoloniais  que atingem os setores hegemônicos. É sintoma de um mundo machucado pelas guerras, pelas crises humanitárias e pela ruptura de enlaces políticos globais como a ONU, que hoje já não consegue conter um campo comum e solidário de acordos e ajustes internacionais onde se possa garantir a paz. Somamos a esse quadro o papel das academias, sua visão crítica sobre inegáveis exclusões e alijamento dos grupos subalternos. Uma nova arte está chegando. E, penso, que não é sobre se calar, já que as misérias estão grassando mesmo sob intensas disputas de narrativas. Entendo que é  sobre superá-las, sobre ultrapassá-las, sobre criar o futuro que ainda será dito.

E, se a política e a arte se comprometem, devemos encarar o fato de que o mercado tem ditado as regras. E isso está longe de ser um jardim de inocências. As incongruências e as dissonâncias são severas. As instituições de arte hoje estão sendo mantidas por grandes empresas e suas disposições irreverentes e indisciplinadas estão mantidas sob o véu dos editais públicos que, por sua vez, são quase sempre veiculados por essas mesmas fontes de financiamento. Me pergunto até quanto se poderá manter sob a temperatura que se ferve em crítica severa e sem trégua sob essas mônadas institucionais? Entre as parcerias do MAM SP, que sedia a mostra, estão a prefeitura de São Paulo, o Ministério da Cultura e o complexo  Itaú, e outras. Percebemos que é um intrincado jogo de equilíbrios pelo qual agentes culturais estão mantendo vivos os espaços culturais em nossas cidades e que saber navegar entre essas marés de financiamentos, apoios diversos e disposições institucionais é tarefa que exige brilhantismo e altas habilidades diplomáticas.

E isso não é pouca coisa para quem, como Diane Lima, investiga o que determina como uma “reviravolta epistemológica”, um efeito de transformação da arte pelo feminismo negro, tratando de abordá-lo tanto no Brasil quanto no mundo. Com referências à filósofa Denise Ferreira da Silva, radicada na Universidade de Nova York, Lima vai tecendo outros vieses com autores citados pela própria Ferreira da Silva, nomes que abrem caminhos às novas investidas no mundo da arte com as quais a curadora projeta essa mostra coletiva. Pois é isso que significa esse Panorama, um apanhado do que se projeta hoje e expande-se  em brilho,  como faísca,  a iluminar o futuro.

E trago o elemento brilho pois é um dos seus mais significativos elementos, ainda que esteja subliminar nas falas curatoriais. Muito glow. Mas atenção: nada é falso, é brilho  em sentido espiritual, elemento vívido. Como na obra de Gilson Plano, escultor goiano e um dos expoentes nacionais do Tempo Negro, tropo criado pela curadora a partir da obra do filósofo David Lloyd, na costelação de artistas que são convocados a rasgar os véus de um regime racial estético e de ir ao fundo na matriz ocidental que, até então, obliterara outros olhares e fazeres. Sua obra traz brilho por uma lâmpada cuja luz abre e fecha sob capas de couro pintadas ora de preto, ora de prateado. Como véus pesados e densos, nesse jogo de camadas estendidas sobre um gradeado, estão cortinados prateados de pele ao fundo que espalham o brilho de suas superfícies ofuscantes, enquanto outras, absolutamente pretas, absorvem toda a cor. Em certos momentos, a luz entra verde,  que pinta tudo. Há fios perpassando-os e atados a volumes grandes e escuros no chão como pedras. Somos ativados corporalmente pelo peso e também a trama, a pele e o brilho. E tudo envolvido em amarrações poderosas, como ato mágico em cena ritualística.

Na sala especial, em protagonismo, temos o já citado Moacir Soares de Farias, fechado em seu universo próprio de citações bíblicas endemoniadas, lúgubres, fantásticas e exuberantes. Não se pode fotografar e está resguardado às crianças, um cuidado respeitoso que Diane Lima tem com sua exposição a olhos despreparados. Atenção: as crianças só podem entrar com autorização dos responsáveis por escrito. Mas é tudo  muito provocativo! O que dizer das peças em cerâmica, corpos sinuosos e fluídos e a máscara de Bárbara Banida! Ela veste Trump e a cor explode nesses trabalhos.

Fui surpreendida pelas intervenções de Thaís Muniz na comunidade do Jacaré, em Salvador. Em um diálogo fora do tempo, Muniz performa sobre as antigas esculturas públicas de Ramiro Magalhães. É extremamente interessante como essa artista cria suas monumentais lagartos, Latisaura e Jacaréssaura em um terreno baldio, agora convertido em centro lúdico da comunidade que  seguiu crescendo ao seu redor. Um marco que ativa com seus figurinos, poses, gestos em performance reavivando fantasias pessoais e coletivas.

Temos ali as participações indígenas, “os negros da terra” como já foram chamados na época da entrada ibérica.  Fykyá Pankararu modela cerâmicas agenciando saberes ancestrais vindos do sertão pernambucano à modelagem em traços acadêmicos, com representação de figura, queima em forno elétrico e compondo com traços originários da cerâmica pankararu. As peças são tingidas com argilas coloridas, numa evocação de sabedorias ancestrais de sua linhagem Camaleão, espírito que marca a origem e destino do artista, segundo visões cosmogônicas. Misturas poderosas que fazem do seu trabalho objeto de interesse explícito e implícito, pois a atração é mais que perceptível: seus poderes são visíveis e também invisíveis.

Não poderia deixar de falar de Rodrigo Cass, ex-seminarista que faleceu faz pouco, a 17 de setembro, em um acidente na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. Perda muito lamentada, pois vinha produzindo de forma vigorosa e comparado a Padre Jesuíno do Monte Castelo, artista maior do nosso barroco. O Panorama apresenta vídeos fascinantes nos quais manipula veladuras, cortes intempestivos e cor em movimento. Vocês verão uma mostra em vídeo pois encontro dificuldade em descrevê-los, assim como tive em registrá-los. Há várias associações com mãos angelicais, intervenções divinas, magias pinky, filmes infantis. Talvez por serem belos e divertidos, eu simplesmente me apaixonei por suas vídeo pinturas, minhas obras favoritas da exposição.

Dito isso, o que ainda é apenas um pouco do que se precisa saber para dar ganas de ir ver, lembro que este espaço no e-jornal 27 pretende estimular o público a ter suas próprias ideias e parâmetros e, principalmente, a buscar contato direto com as exposições. É necessário ir a São Paulo de vez em quando buscar essas grandes presenças. E não precisa ter muito para chegar lá: dá para ir cochilando de ônibus leito, acordar cedo na cidade e, antes de pegar o metrô, tomar um cafezinho com pão de queijo na rodoviária (dica secreta e muito top da lanchonete que fica na plataforma de desembarque; não desconfie da simplicidade, é muito boa). O MAM fica no Parque Ibirapuera, lugar cultuado pelos paulistanos e um ambiente super agradável. Se tiver economizado, pode almoçar lá mesmo, tem um restaurante muito interessante, com sabores exóticos e curtir não só a mostra Panorama, mas aproveitar outros espaços culturais do parque. E é bom lembrar que não foi Inhotim que inventou a presença de obras de arte em meio a jardins. Tem muitas esculturas de artistas icônicos especialmente ao redor do MAM.  E, detalhe: essa mostra alocou trabalhos ao redor do prédio recém re-inaugurado. Em uma das salas, com grande parte de suas paredes em vidro de tons alaranjados (uau), você poderá ter a sensação muito especial de perder a noção dos limites dentro/fora.

Como provocação, estão imagens de obras que não apresento, a lista está no final da coluna. Observe todos os detalhes, como a relação chupeta-máquina fotográfica-metralhadora aqui abaixo e os espalhamentos de peles e tramas, escorridos e luzes fugazes.

É esse o grande encanto da arte: ultrapassar medidas, suplantar palavras, nos levar a lugares que não existem e criar novas realidades. Ajudar a formar novos mundos, abrir campo para as invisibilidades; por isso extremamente necessária nesses tempos opressivos e incertos. Depois que tudo foi dito, vem o tempo de semear o futuro. Um futuro onde a sombra é lugar também de feitiço, abrigando o brilho e espargindo luzes multicoloridas.

Depois de tudo vem o Tempo Negro e ele é vigoroso.

A mostra 39º Panorama da Arte Brasileira estará aberta até 24 de Janeiro de 2027. Segue a lista de obras em ordem inversa para facilitar a consulta. Dentre elas, em duas eu perdi o título, achei que os encontraria no catálogo mas será preciso rever – o que não é de todo mal ter de regressar… Todas são recentes, com exceção da n 12:

12º Emer Ferreira, Mecanismo Íntimo, 2024;

11º Allan Weber, Traficando Arte;

10º Amorí, O fogo interior;

9º Rodrigo Cass, Manifestação Revolução Mística (detalhes de instalação);

8º.Fykyá Pankararu, S/ Título;

7º Thaís Muniz, O Olhar da Latissaura (perdi o título, provisório);

6º Bárbara Banida, Caravela Cerea Tortuosa;

5º Gilson Plano, Cintilação;

4º Car