Fabulações Espaciais como Antídoto: dos pequenos jardins comunitários à obra do artista Raul Mourão
Por Isabela Frade
Da recusa de pensar o acúmulo incessante de eventos recentes da arte, ainda que sejam maravilhosos, estupendos e tudo o mais que meus superlativos hiper animados pudessem fazer para estimular o buscador de encantos que há em cada um de nós (…) e também a mim mesma, o desânimo mostra sua sombra. Ando tão down com as guerras que escalam e parecem se reunir sob o fantasma da #3 WWW, a Terceira Guerra Mundial, no prenúncio do fim. Tá uma barra relaxar diante de tantos horrores que seguem se intensificando mas – quase como um avesso desse mal – , ao mesmo tempo, vemos os festejos da arte, como se vivêssemos em tempos de glória. Há algo que reúna essa duplicidade? Ou é simples coincidência? Ou é a arte se vingando de tanto tempo de desespero e se preparando para vencer a guerra? Um paradoxo do sistema alienante ou um lance de mestre para virar o jogo?
Vou deixar essas perguntas como provocação porque a coluna hoje é para quem curte, como eu, pedacinhos de grama despontando no meio dos cimentos, das ferrugens que comem as grades e as deixam com cara de molduras no espaço fabular por quem imagina tipos de moradores e suas histórias, para quem gosta do esboroar lento dos muros, com a hera subindo e fazendo seu tapete verde entre nichos e outras lindezas bordadas pelo tempo. Para os românticos cultivadores das memórias da cidade, toda placa com lançamento de torre de concreto é um fato pungente. Não que eu seja radical ao que precisa ser erguido, mas precisamos perceber que a grande instauração, a marca do registro temporal dessa rede delicada é violentamente rasgada. O nascimento de uma nova edificação é, assim, sempre um trauma para quem vibra sobre essa teia de enlaces físicos da memória.

Proponho um exemplar comum para a nossa reflexão, algo comum, tão banal que pouco ou nada refletimos sobre: Uma árvore que a cada dia por ela passamos começa a fazer parte de nossa existência de forma sutil. Cada dia atravessando a rua e a tomando como marco de passadas, da sombra que marca o tempo, de uma floração que indica a estação ou ainda a sombra para quem, ali, espera pacientemente por alguém. Seus movimentos na copa informam o sentido do vento, a casca rugosa que percebo com progressiva sutileza meandros e fendas, suas gradações de cor, texturas a que nos acostumamos deliciar dia após dia; e vamos nos aderindo esteticamente a cada um dos objetos ao nosso redor: cercas, postes, fachadas, vamos habitando o mundo e tornando-nos parte dele, nossa camada existencial mais ampla envolve a cidade! Assim é que cada pedaço da casa, da rua, de um local que frequentamos passa a conter nossa ternura, a alimentá-la.
Nossos políticos parecem não se dar conta, por egoísmo narcísico ou pura falta de sensibilidade, dessa densa nuvem existencial que nos envolve em todo e cada lugar, que ali abriga parte significativa nossa emoção; é com brutal ignorância que agridem as áreas sensíveis das zonas de existência comum com seus projetos de modernização, fazendo o passado ser desprezado em sua ânsia pelo novo, ávidos por se instaurarem acima do podium da modernidade. Representantes do progresso, da prosperidade, de um futuro que nunca chega.

Um país dedicado à novidade como se não tivesse passado exige esse regular retorno da marca inaugural, de uma coisa colocada sobre nossas cabeças, uma imposição da festiva estreia com seus rituais de festa chic, seus flashes propagandísticos, sorrisos que celebram o projeto de um futuro descontente, pois sempre será traçado no dia seguinte o plano de uma nova quimera a ser instaurada. Novidadeiros, não observam as ruínas que seguem se multiplicando no esgarçar dos afetos. O tecido urbano segue se adensando, acinzentado e agravado por todos os males da tristeza, do isolamento, da depressão. Talvez se possa combatê-los com as drogas lícitas ou ilícitas, mas isso seria justo? Deixo isso ao seu próprio juízo mas, sobre o que mais importa nesse momento, ao pensarmos a(s) desgraça(s) das cidades modernas, não seria pior a sua feiúra avassaladora? Ou o seu calor? Ou o ar poluído?

A cidade é continuamente violada pelos espertos. Mas nem tudo é perdido. Há resistência amorosa: a cadeira na calçada, os jogos infantis que buscam território limpo da tralha edificada e arrumam campinhos, os canteiros cultivados pelos vãos livres criando jardins vadios. Há uma cidade viva por entre os megalômanos de plantão e é para os seus silenciosos e anônimos amantes que esta coluna hoje se dedica. Pois eles e elas criam viveiros de saudade, de sossego, de aninhamento das almas cansadas de pressa, de rigor, de prestígio. Canelinhas verdes que cultivam suspiros calmantes, florzinhas daninhas ao solipsismo. Que reportam aos traços de um tempo sempre a ser resgatado, a maturidade de uma cidade que, com esses gestos de cuidado, conflagra sua própria dinâmica existencial. Há vida sensível em cada um de seus quadrados.
Me reporto especialmente ao espaço contíguo ao que habito: um cantinho de Vila Velha, entre o Centro e Praia da Costa, faixa urbana colada no entremeio dos verdes que teimam em manter-se de pé ao lado do Morro do Moreno, uma ilhota de verde cercada de muradas de prédios que vão roubando rapidamente o canto das casas, agora quase impossíveis de se custear pela elevação dos impostos. Vão cedendo, uma a uma, e seguimos observando essa política urbana que devora avidamente cada pedacinho aprazível. Mas esse espaço individual existe por qualquer malha urbana. Ao nos deslocarmos pelas cidades vizinhas, vemos oásis existenciais que estão sendo pacientemente preservados. E vai além, devemos reconhecer os jardineiros urbanos de São Paulo e no Rio, canteirinhos nas megalópoles.Tenho certeza que você conhece um recanto assim. É uma estratégia para enfrentar o desatino da pressão demográfica e da segregação sócio-espacial que se agrava a cada dia.

Sobre a violência de uma engenharia brutal que se impõe, um artista brinca com as esperanças de humanização de sua própria cidade, o Rio de Janeiro. É o genial Raul Mourão, um dos expoentes das artes visuais no país que se dedica, entre tantos exercícios criativos, a fabricar um conjunto de esculturas móveis – ou cinéticas, para usar um termo mais justo, pois são um tipo de movimentação controlada, giros e deslocamentos de algumas de suas partes, como máquinas poéticas.
De certo modo, remeto ao texto que dediquei ao escultor Vilar, pois existem afinidades entre objetos de um e de outro artista, mas agora essas formas em foco apresentam uma mesma escala, são elementos de um conjunto que, reunindo-as , apresenta uma perspectiva sobre a cidade. São casas e edifícios tratados como jogos de montar e em cujas determinadas partes fazemos entrar em deslocamento. Temos aqui um artífice com grande controle da física dos corpos – material rígido, sua forma e distribuição de peso para que elas entrem e se mantenham em agito, vibrando e até mesmo rodando depois de serem manipuladas. Tudo depende da força que o espectador/manipulador exerce sobre cada um dos objetos.
Esses que são todos produzidos em modelos lineares, arestas muito rígidas e resistentes de aço corten que sustentam outras estruturas mais livres que, ao serem perturbadas pelo impulso do toque, empurradas, criam um circuito em giro, balançam. É fascinante, é divertido, é amoroso no seu gesto de reduzir os elementos da cidade em seu tamanho, subtraindo seus materiais até chegar a simples estruturas e fazê-las entrar em marcha, como um jogo de criança. Estágios em diversos modelos de uma maquete altamente depurada e que, por sua mobilidade lúdica, cria deleite. Devido ao fascínio pelos módulos em desequilíbrio é especialmente gostoso estar ali com outras pessoas, o que permite que várias estruturas daquelas sejam perturbadas de seu provisório silêncio.
Segundo o site da Nara Roesler, sua galerista, “inspirado pela paisagem metropolitana (inicialmente a carioca), o artista cria a partir de observações do cotidiano, desenvolvendo propostas que transitam entre o documental e a ficção. Suas obras, constituídas por materiais diversos que ressignificam os elementos visuais da cidade, estimulam reflexões sobre o espaço e o corpo social.” O texto nos dá pistas sobre esse intervalo entre o fabular e a crítica por onde passeia o artista.
E, agora a verdade: sendo apenas maquetes de grandes esculturas, por isso estejam viajando juntas até nós. Saíram da mesa do “desequilibrado” projetista de críticas e sonhos urbanos para essa pequena e deliciosa exposição, seus estudos então reunidos em um agrupamento que permite pensar e sentir a nossa própria relação com a cidade, das relações que estabelecemos onde vivemos, de como vivenciamos esse lugar. Há uma das esculturas em escala humana na mostra, como fotos e vídeos de construções monumentais. Mas, perdoem, o brinquedo na mesa é que faz toda a graça.
O poder da arte é mudar nossas relações com a vida, trazer perspectivas novas e vivências enriquecidas, perturbar o senso amortecido pelo massacre dos dias soterrados pelas urgências e obliterados pela necessidade de trabalho árduo. É o respiro do ser para o alargamento da nossa existência. Raul Morão faz isso com leveza, humor e refinada vibração. É alta a dose de inteligência espacial nessa jogada. Dá para ver isso também os desenhos, os pré projetos, seus planos de animação. São relevantes como traços de seu pensamento, rastros do que ainda não surgiu.
Pergunto então, finalizando esse texto que inicia nostálgico mas se alegra com os brinquedos de Mourão, revendo o clamor para a consciência sobre os que destroem os recantos de poesia e memória de nossas cidades e a busca daqueles que recriam aspectos de uma cidade humanizada, de qual conjunto fazemos parte?
O organizador da mostra é o escritor Omar Salomão, ele também artista, agente cultural na coordenação do espaço cultural Casa do Governador que vem agitando uma comunidade interessada na arte contemporânea. Segundo ele, essa é a primeira mostra da Galeria Gabinete, espaço de arte sob sua curadoria. Vamos acompanhar!

Doutora em Comunicação pela USP, artista e pesquisadora. Professora no Centro de Artes da UFES e no Programa de Pós-Graduação em Artes, atua na linha Interartes e Novas Mídias. Mineira de origem, com passagens pelo Rio e São Paulo, hoje vive em Vila Velha, dedicando-se ao desenvolvimento de poéticas relacionais e diálogos interculturais.





