Laerte Ramos inaugura “Escapismo” na OÁ Galeria, em Vitória (ES)
O artista Laerte Ramos, natural de São Paulo e um dos mais importantes nomes da arte contemporânea brasileira, apresenta a exposição “Escapismo”, a partir do dia 5 de novembro, às 19h, na OÁ Galeria, em Vitória (ES). A mostra reúne 50 obras inéditas, entre tapeçarias, esculturas, pinturas-objeto e experimentações gráficas, nas quais o artista aprofunda sua pesquisa sobre as relações entre matéria, tempo e imagem, tensionando os limites entre o artesanal e o tecnológico, o natural e o artificial, o real e o imaginário.

Com uma trajetória que soma mais de três décadas de criação, 54 exposições individuais e 32 prêmios, Ramos vem consolidando uma poética singular baseada na experimentação de materiais, na precisão técnica e na reflexão sobre o papel da arte em um mundo atravessado pela aceleração digital e pela efemeridade das imagens. Em “Escapismo”, ele convida o público a desacelerar o olhar, a experimentar o tempo do gesto e a perceber a matéria como pensamento.
A matéria e o mito
As obras de “Escapismo” são compostas por materiais que remetem tanto à ancestralidade do fazer manual quanto à contemporaneidade tecnológica. Lã, madeira, chumbo e luz se convertem em elementos simbólicos que refletem sobre a dualidade humana — entre o peso e a leveza, o visível e o invisível, a densidade e a transparência.
A lã, material recorrente na mostra, ocupa papel central: é fio e signo, corpo e memória. Tecida à mão, transforma-se em superfície vibrante, ora opaca e densa, ora translúcida e etérea. O gesto repetitivo do tecer, impregnado de silêncio e ritmo, assume uma dimensão quase ritual, como se cada ponto fosse um sopro de permanência.

Laerte Ramos provoca o visitante a atravessar “a fronteira entre a matéria e o mito” — expressão que sintetiza o cerne de sua investigação. Ao manipular substâncias tangíveis, o artista busca revelar as forças invisíveis que as habitam, traduzindo em forma e textura as tensões entre o mundo físico e o simbólico.
Tapeçarias da transformação
O núcleo central da exposição apresenta sete tapeçarias monumentais que simbolizam fenômenos naturais e energéticos — vulcões, tornados, auroras e explosões atômicas. Cada obra se constrói como uma paisagem vibrante, em que o ponto se transforma em pixel, e o gesto artesanal, em linguagem contemporânea.

Essas peças condensam o espírito de “Escapismo”: mais do que fuga, trata-se de uma experiência de expansão. Ramos propõe um estado de suspensão entre o corpo e a imagem, a terra e o cosmo, a natureza e a máquina. O artista cria superfícies que parecem pulsar, feitas de energia e cor, como se traduzissem em matéria os fluxos invisíveis do mundo.
As tapeçarias são também metáforas da resistência: em cada fio entrelaçado, há uma recusa à lógica do instantâneo. O tempo do fazer se opõe ao tempo da máquina, e a obra se torna um gesto de desaceleração — um convite à contemplação e à permanência.

Entre o artesanal e o tecnológico
A exposição inclui ainda duas séries que ampliam o diálogo entre gesto e artifício: “Omen” e “Retroland”.
Em “Omen”, Ramos recorre à técnica de wetfelting (feltragem úmida), que envolve a fusão de fibras de lã através de calor, água e fricção. O resultado são superfícies densas, táteis e orgânicas, que evocam a textura da terra, a energia do fogo e a fluidez da água. Há um caráter quase geológico nessas obras, como se nelas o tempo tivesse deixado suas marcas.
Já em “Retroland”, o artista trabalha com camadas de madeira, acrílico e luz, criando pinturas-objeto que operam como paisagens abstratas. A luz, incorporada como elemento construtivo, atravessa as camadas e cria uma sensação de profundidade e movimento, sugerindo o entrelaçamento de tempos distintos — passado e futuro, memória e projeção.
Essas duas séries apontam para o eixo central de “Escapismo”: o desejo de compreender como a matéria pode conter o tempo, e como a arte pode transformar o instante em duração.
A metáfora do voo
Entre as obras apresentadas, a escultura “Foreverandever” ocupa um lugar de síntese conceitual. Fundida em chumbo, representa dois aviões unidos em um mesmo corpo, impossibilitados de decolar. O peso do material anula o impulso de ascensão, transformando o sonho do voo em imagem da impossibilidade.
Essa contradição — entre o desejo de liberdade e a inevitável ancoragem ao real — perpassa toda a exposição. O voo se torna metáfora da criação: é impulso e limite, imaginação e gravidade. Em “Escapismo”, Ramos parece afirmar que o verdadeiro movimento não está na fuga, mas na capacidade de permanecer.
Um artista entre mundos
Formado pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), Laerte Ramos é artista, curador e gestor cultural. Sua trajetória internacional inclui residências na França, Suíça, Holanda, Portugal, Estados Unidos e China, experiências que ampliaram sua visão sobre a circulação da arte e o diálogo entre tradições e tecnologias.

Além de seu trabalho autoral, Ramos dirige o projeto Ar: Acervo Rotativo, voltado à circulação de obras de arte e ao fortalecimento da rede entre artistas, curadores e colecionadores. É também responsável pela Studium Generale, produtora dedicada à criação de programas de residência artística e intercâmbio cultural.
Sua atuação reflete uma visão abrangente da arte como campo de trocas simbólicas, onde a criação é também gesto político e forma de resistência.
A poética da permanência
“Escapismo” reafirma a fidelidade de Laerte Ramos a um fazer artístico que se opõe à lógica do efêmero. Suas obras são construídas lentamente, com paciência e precisão, revelando um pensamento que vê no processo o verdadeiro conteúdo da arte.
A mostra propõe uma poética da presença, na qual o fazer manual é compreendido como ato de resistência e contemplação. Cada tapeçaria, cada escultura e cada pintura-objeto manifesta uma ética da lentidão e do cuidado.
Ao transitar entre o analógico e o digital, o orgânico e o sintético, Ramos nos lembra que a arte continua sendo um lugar de pausa — um refúgio possível diante da velocidade que nos atravessa. “Escapismo” não é uma fuga do mundo, mas uma reconciliação com ele: um convite a ver, sentir e compreender o tempo com outros olhos.
Serviço
Exposição: Escapismo, de Laerte Ramos
Abertura: 5 de novembro, às 19h
Visitação: segunda a sexta, das 10h às 19h30
Local: OÁ Galeria — Av. Cezar Hilal, 1180, loja 9, Praia do Suá, Vitória – ES
Classificação: livre
Entrada: gratuita

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