Sesp do ES admite uso inadequado de IA em fotos de apreensões e abre apuração

Sesp do ES admite uso inadequado de IA em fotos de apreensões e abre apuração

A Secretaria de Segurança Pública do Espírito Santo reconheceu ter usado ferramentas de inteligência artificial para editar imagens de apreensões policiais divulgadas à imprensa e determinou uma apuração interna para identificar outros casos similares.

A admissão ocorreu após um levantamento do G1 ES, publicado na terça-feira (23), que identificou distorções em ao menos oito fotografias enviadas pelas polícias Civil e Militar a veículos de comunicação entre agosto e setembro de 2026. As imagens exibiam cédulas deformadas, munições com formatos irregulares e itens duplicados — características típicas de conteúdo gerado ou modificado por IA generativa.

## O que a Sesp disse

Em nota, a secretaria confirmou o uso das ferramentas e classificou o encaminhamento como “inadequado”. A pasta declarou que as imagens modificadas foram enviadas exclusivamente para divulgação e que não integraram registros oficiais de ocorrências ou investigações. Afirmou também que as imagens originais estão preservadas.

“A Sesp reconhece que o encaminhamento foi inadequado e informa que já orientou as áreas responsáveis para que recursos de inteligência artificial generativa não sejam utilizados em fotografias destinadas à divulgação de materiais apreendidos, de forma a garantir a fidelidade dos registros apresentados à sociedade”, diz o texto oficial.

## Distorções identificadas

O levantamento analisou fotos distribuídas pelas assessorias das corporações ao longo de agosto. Em várias imagens, as distorções eram visíveis: notas de real com valores e efígies deformados, munições que se fundiam umas às outras sem sombra individual consistente e objetos com contornos incoerentes com a iluminação da cena.

Três ferramentas de detecção de IA — Hive Moderation, Is It AI? e AI or Not — foram usadas na análise. Em várias imagens, os três detectores apontaram probabilidade superior a 95% de uso de IA. Uma verificação com a ferramenta OpenAI Verify também indicou a presença de SynthID, marca d’água invisível desenvolvida pelo Google DeepMind em sistemas de IA generativa.

## Riscos apontados por especialistas

O advogado criminalista Raphael Boldt afirmou que a manipulação de imagens de apreensões pode colocar sob suspeita outras divulgações institucionais. “Mesmo sem integrar o inquérito, essa prática pode produzir desinformação institucional, violar direitos de pessoas identificáveis e, em situações mais graves, gerar responsabilização administrativa ou penal”, alertou.

O especialista em inteligência artificial Breno Lobato explicou que ferramentas generativas não preservam informações exatas — como números em cédulas ou detalhes de objetos — porque reconstroem pixels com base em padrões estatísticos. “O principal risco é simples: a IA não sabe necessariamente o que estava ali. Ela calcula o que provavelmente deveria estar. Então um número pode mudar, uma letra pode ser reconstruída errada ou um detalhe pode surgir de forma plausível, mas falsa”, disse.

## Próximos passos

A Sesp informou que está identificando possíveis novos casos e se disse à disposição para esclarecimentos. A secretaria destacou que a tecnologia de IA “deve obedecer o que preconiza a lei e as boas práticas, limitando-se à preservação da intimidade, da vida privada e de dados sigilosos”.

*Fonte: G1 Espírito Santo*