Artista de Jerônimo Monteiro prepara nova fase com exposição e ateliê ampliado
Marcia dos Anjos, que apresentou 20 quadros em ponto cruz na Biblioteca João Brito Neto, planeja um novo espaço para abrigar sua produção, sua série de anjos e um acervo de livros
Depois de reunir 20 obras na mostra coletiva realizada entre 23 e 30 de setembro na Biblioteca João Brito Neto, em Jerônimo Monteiro, no sul do Espírito Santo, a artista Marcia dos Anjos já trabalha nos próximos passos. Ela anuncia a construção de um novo ateliê, maior que o atual, e promete novidades que, por enquanto, mantém em segredo. “Tenho uma surpresa bem guardada”, adianta.

O novo espaço nasce de uma necessidade prática. O ateliê onde ela trabalha hoje ficou pequeno, e a artista quer reunir num só lugar a oficina, os quadros de anjos e um acervo de livros que, segundo ela, fazem parte da história da família e do ofício. Marcia descreve o projeto como “mais um complemento dos maiores sonhos” que já realizou. “Saio dessa mostra com o coração cheio e com vontade de seguir bordando, preparando novos anjos e, quem sabe, levando esse trabalho para outras cidades do estado”, diz.

Uma tradição de 146 anos
Marcia Ferraz Moulin é conhecida na cidade como Marcia dos Anjos ou, entre os mais antigos, Marcia do Banestes, banco em que trabalhou por quase 20 anos. Formada em Contabilidade, hoje aposentada, ela se apresenta como herdeira de uma tradição familiar que, pelas contas da família, soma 146 anos. O ofício começou com o bisavô materno, passou ao avô materno e chegou a ela, que representa a terceira geração.

A transmissão tem data simbólica: o avô lhe confiou a tradição no dia em que ela nasceu, 12 de dezembro de 1962. O bordado esteve por perto desde a infância, mas foi o avô quem ensinou a neta a enxergá-lo como algo maior do que um passatempo. “Ele dizia que as mãos da gente servem para deixar alguma coisa boa no mundo”, lembra. Com a morte dele, Marcia sentiu que precisava dar continuidade ao que havia aprendido, e é por isso que fala em missão. Para ela, não se trata apenas de uma técnica, mas de um compromisso com a memória do avô e com a ideia de que o trabalho feito com amor atravessa gerações. “Cada vez que me sento para bordar, sinto que ele está ali comigo.” Algumas lembranças dele seguem guardadas no ateliê, como lembrete de por que começou.

A produção própria teve início quando Marcia completou 33 anos, idade que ela associa à de Cristo. Entre 1995 e 2000, realizou 20 exposições.
Entre o banco e o bastidor
Por muitos anos, a arte dividiu espaço com a rotina bancária. Marcia bordava à noite e nos fins de semana, sempre que encontrava tempo, e descreve o bordado daquela época como um refúgio depois do expediente, cansativo, mas fonte de equilíbrio. Expor no próprio Banestes foi um momento marcante, porque os colegas que a conheciam apenas como bancária puderam ver outro lado dela.

A aposentadoria mudou o ritmo. Com dedicação integral, a artista passou a experimentar materiais e a pensar as obras em conjunto, como série. “Foi aí que a arte deixou de ser só um refúgio e passou a ocupar o centro da minha vida”, afirma. Ela também começou a receber visitas e a compartilhar o que sabe, o que considera uma forma de manter a tradição viva.
Ponto cruz, brilho e paciência
A técnica de Marcia é a marcação de ponto cruz em telas, a partir de gráficos. Ela trabalha com linhas de meada, linhas metalizadas de várias cores, miçangas, fitilhos de camurça e uma linha especial que, depois de aplicada, ganha aspecto de lã e forma o corpete dos anjos. O resultado são figuras de cores vibrantes e superfície texturizada, com brilhos que dão às peças uma presença quase luminosa.

O processo é longo. Cada tela leva, em média, de cinco meses a um ano para ficar pronta, conforme a quantidade de acessórios prevista no gráfico. O acabamento inclui molduras variadas e vidro antirreflexo.
Bordar como oração
Os anjos, tema central da obra, ecoam o nome pelo qual a artista ficou conhecida e fazem parte de sua fé desde a infância. Para ela, representam mensagem, proteção e cuidado. “Bordar um anjo é quase uma oração”, resume. Marcia conta que não começa uma peça sem antes se aquietar e fazer uma prece, pedindo que o trabalho leve paz a quem for recebê-lo. A paciência, o silêncio e a repetição exigidos pelo ponto cruz, diz, a aproximam de Deus.

O desenho nem sempre segue o plano inicial. Muitas vezes as cores “vão pedindo outros caminhos” durante a execução, e a artista aprendeu a confiar nesse processo. Ela relata já ter recebido mensagens de pessoas que levaram um anjo para casa em um momento difícil e encontraram conforto na peça, o que interpreta como sinal de que a obra cumpre seu papel.
Em casa, entre os seus
Para a mostra na Biblioteca João Brito Neto, Marcia selecionou anjos de vários tamanhos e cores, alguns mais delicados, outros com mais brilho e movimento, pensando no conjunto e no diálogo entre as peças. A intenção era mostrar a diversidade possível no bordado e a personalidade de cada figura.

Expor na cidade natal, ao lado de outros artistas e artesãos da região, teve um peso especial. Muitos visitantes conhecem a artista e conheceram o avô dela, e houve quem se emocionasse diante dos quadros. “Jerônimo Monteiro tem muito talento, e espaços como esse ajudam a valorizar quem cria com as próprias mãos”, afirma.

Quem é?

Nome: Marcia Ferraz Moulin (Marcia dos Anjos)
Nascimento: 12/12/1962, Jerônimo Monteiro (ES)
Formação: Contabilidade
Técnica: ponto cruz em tela, com linhas metalizadas, miçangas e fitilhos de camurça
Trajetória: 20 exposições entre 1995 e 2000; mostra no Banestes; 20 obras na coletiva da Biblioteca João Brito Neto (23 a 30/9/2026)

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