Máquinas ópticas em constelação: José Carlos Vilar do risco ao aço

Máquinas ópticas em constelação: José Carlos Vilar do risco ao aço

Por Isabela Frade

 Uma constelação ocorre em sinergia potente no centro de Vila Velha: Estamos recebendo nada menos que uma coleção de desenhos  e esculturas de José Carlos Vilar, astro da escultura capixaba. Quem conhece arte sabe dele, é força marcante em nossa paisagem cultural, marcadamente quando instala presenças definitivas na Grande Vitória de suas esculturas monumentais. Quem esteve presente à sua última exposição no Espaço Cultural Palácio Anchieta ano passado sabe também que ele é um grande mestre, com domínio pleno da forma em metal, exercitando-se no ferro e no aço em diferentes dimensões. Desde miúdas forjas em placas e montagem em barras, assim como também por linhas que crescem e envolvem formas de extensas e complexas espacialidades. Lições de Escultura foi uma mostra sensacional com curadoria do crítico paulista Agnaldo Farias.

Agora a proposta é dedicada a uma pesquisa de arquivo desenvolvida pela também artista Rosana Paste, que realiza um levantamento sobre os desenhos de Vilar. Na galeria da Casa da Memória está a mostra Do Risco ao Aço, onde Rosana Paste e Viva Vilar, filha do artista, exploram relações entre o desenho e a forma tridimensional, escultura ou monumento, em diferentes fases de seu percurso.

Senti falta de mais amplitude, queria saber mais, mas o espaço é pequenino e a mostra é um exercício de pesquisa artística em profundidade, exige atenção acurada a esse diálogo entre espaços e história. Não era para ser grande mas, mesmo assim, é.

Assim como se observa estrelas no céu, pequenas luzes que atravessam milênios, as peças vilarianas possuem esse poder de vibrar em grandes distâncias, criando universo próprio. E, observem: é um universo que muitas vezes está dentro delas, pois são como armadilhas de miração. Se não conhecesse diria um bruxo, feiticeiro com suas armadilhas que marcaram gerações e seguem para agências futuras.

Na mostra temos constelação, um jogo de forças que nos leva a estabelecer uma conjugação de gravidades no tempo histórico, em sua trajetória de vida, ao ver a abstração progressivamente ganhando força e perdendo sua natureza primária de figura e chegando à forma depurada da abstração: Forma pura em seus detalhes de cor e textura, a escultura como planeta com sua órbita em torno da repetição e do movimento enquanto marca, em especial, a substância de ferro e aço, deixando ver os traços de feitura e presença no tempo. À atração pelos vestígios do fazer somam-se os registros de sua existência como coisa no mundo. Vejo pontos de solda e uma superfície que enferruja, tem escamas, cria poros, parece viva. E é.

As curadoras Rosana Paste e Viva Vilar são, respectivamente, filha acadêmica e filha natural do artista. E elas também, artistas, lidam com a obra na intimidade de quem cria. Não é uma produção discursiva, uma conjectura regimental, mas um corpo a corpo com as peças. Paste, podemos dizer discípula, é outra figura extraordinária no campo da arte tridimensional, também professora em escultura e com aura brilhante. É amada por todos em sua extrema generosidade e excepcional valor como artista. E esse amor é também sentido na mostra. É o cuidado de curare, curadora, cuidando das coisas do mestre, de quem entende e conhece com enlevo. A filha Viva, ao reunir os desenhos do pai, por sua vez, exprime também uma energia amorosa, escolhendo as marcas de cada uma das fases e organizando esse conjunto de rastros criativos e, por uma energia sutil, aguda, as retira do limbo de suas gavetas para ocuparem o status de obra constelada.

Assim, regem a mostra com singular destreza entre esses afetos de descendentes que honram sua carreira, entendem a fundo, acompanharam desde sempre. Deixaram, no entanto, o enigma das datas de algumas esculturas e seus títulos, ou nomes. Uma falha que, no mínimo, é de quem tem intimidade de sobra. Mas para nós, pobres mortais, que desejamos saber, os nomes são chaves de leitura e precisamos delas.  Mesmo que seja o “sem título” que nos aparece, quando teremos certeza de que é mesmo em branco o lugar conceitual por onde devemos caminhar. Pedimos a gentileza do ajuste para esse acompanhamento, para auxiliar no percurso.

Das obras ali reunidas, escolho minha preferida: uma das esculturas em vermelho: um acrílico que, suponho, seja dos anos 80, no auge da modernidade. É simples demais, é uma dobra apenas no centro de um placa que revela um espaço interno em condições mínimas, algo tão tocante que apelidei de “umbigo do mundo” (não é uma sugestão, mas é rs, pois espero que o artista leia essa crônica). Com meios escassos se cria o assombro.  Talvez ele tenha pensado em algo gigante, como muitas de suas coisas, um dia talvez ela cresça e seja um novo desdobramento monumental. Tem potência para isso; Mas o que queria dizer sobremaneira e, especialmente sobre essa, é que coisas pequenas aqui são extraordinárias. Por isso a metáfora da estrela e do conjunto como constelação, parecem pequenas, mas são incomensuráveis. E posso dizer ainda sobre sua emanação própria, ou seja, representam um universo visual único, auráticas. Não é luz, mas é.

São aparatos disruptivos, como algo que rompe seu olhar e o captura em planos e linhas e te deixa cativo, fissurado, em deleite. São máquinas ópticas. Algumas estratégias que pude captar são o corpo aberto ou vazado e o diálogo com seu contrário, o cheio; o plano em  dobra, o corte ou o feixe de linhas em diferentes direções. Algumas vezes a abertura no meio com a sugestão de um lugar (como uma casa) ou, nas formas circundantes, ainda a sugestão de um brinquedo (um pião insólito). Gravei um breve vídeo para demonstrar essa armadilha visual. Fiquei acompanhando a superfície tentando seguir suas trajetórias, sua dinâmica de desdobramento, via como segue abrindo um feixe, depois mantendo sua linhas em paralelo por uma breve intervalo no espaço e depois fechando-o novamente. E, como é formado puramente por linhas, a escultura cria jogos gráficos de sobreposição de um lado a outro que se alternam de acordo com o nosso próprio deslocamento: ela se gira!  É o que chamamos de arte cinética. Parece mover-se, mas está lá em estático dinamismo. Não é movimento, mas é.

Na ante sala, se prepare para o primeiro choque: uma peça grita um som inaudível: a primeira escultura remete a um jogo de agogôs que se unem e, como cornetas, elas estão vibrando pelas ondulações de seus fios conectores. Pura provocação das curadoras que já nos desconcertam na abertura. Logo após, na segunda sala, encontramos a escultura do cartaz à qual se aderem as suas sombras, em exploração sugerida pela proximidade com o plano da parede. Portanto, é preciso estar atento e forte. Há riscos de ficar medindo cada milímetro e composição entre as obras, vendo cada efeito, nuances, detalhes de superfície em puro deleite. Não é fascínio, mas é.

Os desenhos possuem uma trajetória própria: criam um percurso linear pelas paredes contando uma história, temos uma referida linha do tempo. Na última sala, acomodaram três peças sobre uma mesa, essas com textos elucidativos, abriam a leitura plástica das mas já era tarde para mim: eu estava perdida em deriva ótica e assim ficaria por muito tempo. Um pouco viciante, sem dúvida (era onde estava Braile em suas 3 versões). Depois, ao chegar em casa, me deparei com o óbvio que não pudera atinar pelo desvario ocular: eram para ser tocadas!! Isso significa ter de voltar… ver de novo e com as mãos, mergulhar em novas nuances, como gosto de fazer. Uma obra de arte é algo profundo, um território a se penetrar e sentir em densidade.

E assim se ganha mais uma tarde quente na casinha da memória, tão aconchegante. Dei uma espiada também nos instrumentos de navegação que estão na exposição permanente. Dispostos em uma estante, se apresentavam as preciosidades como o sextante, o quadrante, o astrolábio e outros modelos ópticos de estabelecer trajetórias pelo céu; foram esses que me deram a estratégia para seguir imaginando como capturar conceitualmente alguns dos sistemas visuais de Vilar.

Para quem é de fora e vem visitar, algumas informações sobre o local. Vila Velha é coladinha em Vitória e a Casa da Memória fica na região da Prainha, zona histórica daquela que é a segunda vila brasileira. Lugar lindo, cheio de narrativas coloniais.