O Tempo Que o Tempo Tem – Waltercio Caldas em retrospectiva

O Tempo Que o Tempo Tem – Waltercio Caldas em retrospectiva

Por Isabela Frade

Hoje estaremos com um dos artistas mais geniais da arte contemporânea do país, o carioca Waltércio Caldas. Taciturno, reflexivo e extremamente discreto, o artista completa 80 anos apresentando aspectos de sua trajetória nas artes visuais em uma retrospectiva exuberante. Instigante, o conjunto de trabalhos está alinhado pela curadoria de Lauro Cavalcanti, outro nome paradigmático do campo artístico e diretor da Casa Roberto Marinho, que abriga essa seleta coleção de obras na mostra o (tempo). Imprescindível.

Com as enigmáticas vias circulares que sempre me assombraram em sua obra, adentrei com grande expectativa nestas salas da Casa Roberto Marinho que ainda não tinha tido oportunidade de conhecer. A casa abriga a notável coleção de arte que seguiu se formando e se notabilizando no apreço pela família do jornalista das produções emergentes na arte moderna e contemporânea. Mesmo após a sua morte, em 2003, a coleção segue crescendo em qualidade ímpar e agora contando com uma curadoria geral aos cuidados de Roberto Marinho, filho, e Sophie Bernard, produtora. A Casa RM, no entanto, está aos cuidados de  Lauro Cavalcanti, antropólogo e arquiteto, expert no campo das artes.

De tempos em tempos a Casa Roberto Marinho abre uma nova mostra que, além de apresentar um nome de alta relevância, dialoga com o repertório de obras de sua própria coleção. Inaugurada em 1918, vem se estabelecendo como destino certo para quem deseja acompanhar a produção mais recente do melhor da arte contemporânea.  A mostra de Waltercio Caldas é um forte exemplo dessa constatação.

Já deixei marcado um retorno no meu roteiro de visitas que periodicamente faço na cidade maravilhosa. Tenho que retornar por não ter tido condições de digerir todo o material do artista; fascinante, porém exasperadamente hermético, exigindo o máximo do espectador. Tenho certeza que não vi ainda profundamente tudo o que está ali sendo apresentado. Há muito que inquirir, que observar reflexivamente.

O nível de complexidade é alto, as obras trazem consigo referências múltiplas sobre eventos dentro e fora do campo artístico, apresentando-se como grandes (independentemente do tamanho, são sempre grandes, incontidas) comentários, carregam em si perguntas que se adensam nas formas, cada uma delas trazendo em seu bojo uma profunda tese em artes visuais. “Cultivar suspeitas pode nos salvar das verdades”, nos diz.

Waltércio não é fácil. Ele carrega de pensamento cada linha que traça, no papel ou no espaço, com intenção segura de nos levar a um outro estado do pensamento. Mas, diferentemente de seu grande amigo Tunga, o inebriante, esse artista é severo, calmo, preciso. Como ele mesmo declara, seus objetos não se revelam na primeira impressão, eles são pré-transparentes. Entretanto, após sermos capturados por sua disciplina e nos deixamos seguir, os vislumbres se sucedem. E muitos.

Apesar de recalcitrantes, econômicas ao extremo – são poucos os elementos visuais em cada obra o que, para a minha alma barroca foi como uma tortura doce e suave mas, ainda assim, dolorosamente ávida, atravessei alguns dos enigmas, aqueles os  quais pude defrontar. O artista nos deixa algumas lições em “Notas para uma pedagogia visual bem humorada”: “Considere sobretudo o ‘teor de evidência’ de um  objeto. Por mais completa que uma obra de arte possa parecer, ela sempre será insuficiente em relação àquilo que desconhecemos. Se for uma obra-prima superará até mesmo o desconhecido.” Esse estamento se torna fático. Ele nos mostra como e segue em frente, abrindo o livro dos segredos da própria arte (ainda que os cubra de pó). A obra, em referência a Matisse, faz parte de uma série de trabalhos que apresentam comentários sutis sobre a história da arte, tocando em mestres paradigmáticos. Talvez o mais correto seria dizer que se trata de uma história de arte, já que feita unicamente na relação com as obras e os artistas.

Tido como artista neoconcreto, grupo de feras cujos rugidos abalaram o mundo das artes, como HO, Lygia Clark, Ligia Pape entre essas e outras sumidades, fruto de uma outra geração, Waltercio permaneceu incontido por essa nomenclatura e seguiu à distância, em horizontes indefinidos. Discreto, como um animal na espreita, na obscuridade e no silêncio da própria mente e que, depois, traz à tona a mais bela das caças, uma inquirição. Pergunta sobre a linha, o espaço, a cor, a matéria, o tempo. Está ali o que é do grande mistério da consciência e do entendimento.

Não existe  mapa do “estilo” nem um texto sobre sua “identidade” (na foto do artista, nem mesmo ele nos olha, virado para o lado e absorto, meditando). E são diversas as materialidades e procedimentos evocados. O desenho sobre papel e algumas vezes com colagem ou pintura. Arquiteturas em maquetes, cenas mínimas de outros universos. Esculturas de aço, vidro e painéis de cor assim como os enigmáticos objetos em caixas pretas, forrados em veludo e com inscrições douradas, um arquivo superlativo em absoluta economia da forma. Pinturas à óleo com enigmáticos barbantes coloridos e até poemas espaciais com apenas duas ou três letras. A pedra originária mas também peças modeladas em impressora digital. Mobiliários revertidos em obras como mesas, prateleiras, cabides, ganchos onde se pode apoiar o peso da dúvida e dos reflexos.

Ah! Temos também espelhos. E de muitos tipos, pois quase todas as superfícies são refletoras, algumas bem sutis nesse dispersar da luz. Há ainda pontos que instigam. Pontos negros e outros coloridos, grandes e pequenos que marcam uma realidade unidimensional. E alguns são luminosos. Podemos ver um desses na caixa preta denominada Lascaux. Não quero explicitar nada mais  sobre essa obra para não perder o encanto.

O tempo em parênteses é tudo, tudo o que pode ser contido e abordado e nos aguarda ao diálogo, à contemplação reflexiva, à meditações muito profundas sobre quem somos e como percebemos e elaboramos o que sentimos. O tempo é precisamente o que levamos do contato com esses objetos/enigma, suas dúvidas indefectíveis. Sua dimensão performativa é clara: estamos perdidos em um labirinto de formas/ideias vibrantes que nos arremessam de um ponto a outro. Entre a palavra e a conceito, entre a forma e o conteúdo, entre a superfície e o ambiente, os atravessamentos são de múltiplas ordens.

Mas, seja como for, o vigor está sempre presente. Elegante, conciso, preciso: “Eu gostaria de produzir um objeto com um mínimo de presença e um máximo de ausência”. Nada está ali que não tenha sentido. É tudo pesado, medido, calculado meticulosamente e integra o léxico do paradoxo da vida, da existência. Até mesmo simples caixinhas de chicletes fazem parte desse repertório.

Aproveite porque é raro. E muito precioso. Vale a pena o deslocamento. Recomendo demais! E as dicas para ficar bem gostosinho são dar um pulo no café e na irresistível livraria Pinakotheke. A casa fica em um lugar aprazível, em Santa Tereza, aos pés do Corcovado, onde corre o rio dos Macacos. O verde intenso, os jardins impecáveis, o bistrô aconchega e nos deixa mais confortáveis após o embate lógico e perceptível com as obras desse imenso artista. Ajuda a depurar, a destilar impressões e, por fim, reter as lições reconhecidas.

O tempo presente e o tempo passado

Estão ambos talvez presentes no tempo futuro

E o tempo futuro contido no tempo passado

Se todo o tempo é eternamente presente

Todo o tempo é irredimível.

T.S. Elliot em Burnt Norton

A mostra está em cartaz até dia 27 de setembro.  A Casa Roberto Marinho abre de terça  a domingo das 12h até às 18h. E vejam que coisa boa: às terças, das 11h às 12h, recebe exclusivamente pessoas neurodivergentes e seus acompanhantes. Fica na Rua Cosme Velho, 1098, no Rio de Janeiro.