“Se a Terra queima, queimamos com ela”: Revoada transforma Santa Teresa em palco da arte diante da crise climática

Primeira edição do Salão de Artes Integradas de Santa Teresa reúne 13 artistas de cinco estados na Galeria de Artes de Santa Teresa e no Instituto Nacional da Mata Atlântica. Entre os selecionados está Danielle Monteiro, que apresenta "Mãe-Terra, Corpo em Chamas"
Um vestido que se expande até virar território. Transparências que lembram como a matéria é frágil. Formas vermelhas que atravessam o tecido como chamas e fissuras de uma Terra ferida. É com essa imagem que a artista e pesquisadora Danielle Monteiro chega ao I Salão de Artes Integradas de Santa Teresa, o Revoada. De 3 a 30 de novembro de 2026, a cidade da Região Serrana do Espírito Santo recebe artistas de diferentes partes do Brasil em torno de um tema que já não admite adiamento:
“A Crise Climática na Perspectiva da Arte”.

A escolha de Santa Teresa não é casual. Poucas cidades brasileiras têm uma ligação tão profunda com a natureza e com a história da ciência ambiental no país. Foi ali que o naturalista Augusto Ruschi, reconhecido como Patrono da Ecologia no Brasil, construiu sua obra, e é ali que funciona hoje o Instituto Nacional da Mata Atlântica, um dos espaços que recebem o salão. Discutir a emergência climática nesse território é, de certa forma, devolver a pergunta ao lugar onde ela começou a ser formulada.
Um salão nacional nascido na serra capixaba
O Revoada é uma iniciativa dedicada à produção artística contemporânea e ao diálogo entre arte, cultura, meio ambiente e sociedade.

O edital foi aberto a artistas brasileiros natos ou naturalizados e a estrangeiros residentes no país, maiores de 18 anos, com obras inéditas ou produzidas nos últimos dois anos. As inscrições foram gratuitas e aceitaram trabalhos em seis categorias: desenho, pintura, fotografia, artes integradas, mosaico e escultura para espaços abertos.
A seleção ficou a cargo de profissionais de reconhecida atuação nas artes visuais, que avaliaram qualidade artística, originalidade, pesquisa poética, domínio técnico, pertinência temática e viabilidade expositiva. Além da exposição, o salão distribui R$ 6 mil em prêmios. O primeiro lugar recebe o Prêmio Aquisitivo Revoada, de R$ 3 mil, o segundo recebe R$ 2 mil e o terceiro, R$ 1 mil. A comissão julgadora ainda pode conceder até três menções honrosas.
Os três trabalhos premiados passam a integrar o acervo permanente do salão, e os direitos autorais continuam com os artistas. É um detalhe que diz muito sobre a ambição do projeto: o Revoada não quer ser um evento passageiro, e sim começar uma coleção pública de arte contemporânea que nasce comprometida com o debate ambiental.
Treze artistas, cinco estados
Treze artistas foram selecionados para esta primeira edição: Cristina Rovesse (MG), Danielle Monteiro (MG), Edivan Rodrigues (ES), Eliane Consalter (SP), Gabriel Araujo (MG), Kyria Oliveira (ES), Laura Alkmím (MG), Maria Stefanon (ES), Máximo (RJ), Pedro Kubitschek (MG) e Sandro Barçal (RJ).
Minas Gerais tem a maior representação, com seis nomes. O Espírito Santo aparece com três artistas, o Rio de Janeiro com dois, e São Paulo e Ceará completam o mapa. A diversidade de origens confirma o caráter nacional do salão e coloca a produção capixaba em diálogo direto com artistas de outras regiões do país.
Entre os selecionados está Cristina Rovesse, nascida em Brumadinho (MG) em 2001 e formada pela Escola de Belas Artes da UFMG, que trabalha com materiais descartados e de segunda mão. Ela apresenta “Policromasia” (2026), da série “Estudos de Anatomia”: pinturas de estudantes abandonadas nos ateliês da universidade, rasgadas e comprimidas em rolos dentro dos próprios chassis, no que a artista chama de “pinturas laterais”. A obra mostra como o tema do salão se desdobra também em reflexões sobre descarte, consumo e reaproveitamento.
Vânia Caus: do mosaico à produção do salão
À frente da produção cultural e da curadoria do Revoada está Vânia Caus, artista capixaba que trabalha com mosaico há mais de quatro décadas. Para ela, o projeto quer criar “um espaço permanente de encontro entre artistas, público e questões contemporâneas”. A escolha da crise climática como tema, explica, vem do fato de que o problema já atinge diretamente as cidades, as florestas, os recursos hídricos e as comunidades.

A trajetória de Vânia ajuda a entender o espírito do salão, que aposta no diálogo entre linguagens e na arte ocupando o espaço público. Ela estudou na escola de mosaico de Barcelona que hoje se chama TrencadísBCN. Lá aprofundou os estudos sobre Antoni Gaudí e sobre o trencadís, técnica que compõe mosaicos a partir de fragmentos de cerâmica.
“Tenho em Gaudí uma das minhas maiores referências”, afirma. Sua produção inclui painéis, esculturas e monumentos para espaços públicos, como “Passarinhos”, criado de forma coletiva na Rua Nestor Gomes, no Centro Histórico de Vitória, e “Corações em pixels”, com peças instaladas em vários lugares do mundo.
Em 2024, apresentou a exposição inclusiva “Com Amor” na Casa Porto das Artes Plásticas, em Vitória. Recentemente fez uma residência artística na Espanha, na Itália e na França, pesquisando o mosaico no contexto urbano. Em outubro de 2026, foi selecionada pela TrencadísBCN para representar o Espírito Santo na IV Jornada Internacional de Mosaico Modernista, em Barcelona.

Lá, participa de um painel coletivo em homenagem ao centenário da morte de Gaudí, que reúne mosaicistas de vários continentes e será instalado numa via pública da cidade. A viagem contou com apoio do Edital de Circulação e Intercâmbio da Secretaria da Cultura do Espírito Santo (Secult-ES).
Não por acaso, o mosaico e a escultura para espaços abertos estão entre as categorias do salão. A experiência de Vânia com arte pública e com redes internacionais de artistas ajuda a dar ao Revoada seu caráter nacional, sem perder o enraizamento local.
A importância para Santa Teresa
Santa Teresa é conhecida como a primeira cidade fundada por imigrantes italianos no Brasil, a partir da chegada das primeiras famílias na década de 1870. A herança italiana, a paisagem de montanha e a Mata Atlântica preservada fazem do município um dos principais destinos turísticos e culturais do Espírito Santo.
O Revoada se propõe a acrescentar uma nova camada a essa identidade. Entre seus objetivos estão incentivar a produção contemporânea, ampliar a circulação de artistas e obras, formar público e fortalecer as artes visuais no município.

Para uma cidade do interior, receber um salão nacional significa trazer artistas, pesquisadores e visitantes de outros estados, movimentar a economia criativa e oferecer à população local acesso gratuito à arte contemporânea. Com o acervo formado pelas obras premiadas, Santa Teresa ganha ainda um patrimônio artístico que vai durar além do mês de exposição.
A programação acompanha essa vocação formativa. Depois da abertura, em 3 de novembro, a Galeria de Artes de Santa Teresa (GAST) recebe rodas de conversa nos dias 6 e 13. A premiação acontece em 20 de novembro, e no dia seguinte, 21, o Instituto Nacional da Mata Atlântica recebe uma oficina. A exposição termina em 30 de novembro.
O Museu Mello Leitão, onde ciência e arte se encontram
Parte do Revoada acontece num dos endereços mais simbólicos da história ambiental brasileira. As esculturas para espaços abertos ficam no Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), que abriga o Museu de Biologia Professor Mello Leitão.
O museu foi fundado em 1949 por Augusto Ruschi, nascido em Santa Teresa, e leva o nome do zoólogo Cândido Firmino de Mello Leitão, mestre e incentivador de Ruschi. Por décadas, foi a base de um trabalho pioneiro de pesquisa sobre a fauna e a flora da Mata Atlântica, com destaque para os beija-flores e as orquídeas, temas que tornaram Ruschi conhecido no mundo inteiro. Ruschi foi também um dos primeiros grandes defensores da preservação ambiental no país, numa época em que a palavra “ecologia” mal circulava no debate público.

Em 2014, o museu foi incorporado ao Instituto Nacional da Mata Atlântica, unidade de pesquisa ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Hoje o INMA reúne coleções científicas de referência sobre a biodiversidade do bioma e mantém áreas verdes abertas à visitação, que ganham agora a presença de obras de arte.
Ver esculturas contemporâneas sobre a crise climática dentro de um instituto dedicado a estudar e proteger a Mata Atlântica cria um diálogo poderoso. A ciência mede, cataloga e alerta. A arte provoca, sensibiliza e implica quem olha. No Revoada, as duas linguagens dividem o mesmo chão.
Danielle Monteiro: da Psicologia às artes plásticas
Entre os artistas selecionados, Danielle Monteiro traz uma trajetória que atravessa vários campos do conhecimento. Formada inicialmente em Serviço Social, fez mestrado e doutorado em Psicologia na PUC Minas, com doutorado sanduíche na Universidade de Coimbra, em Portugal. Hoje cursa Artes Plásticas na Escola Guignard, da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG).
Essa circulação entre áreas aparece também na produção artística, que reúne poesia, costura, escultura, pintura, performance, dança, fotografia e vídeo. Autora de três livros de poemas, Danielle venceu em 2022 o Festival Internacional de Poesia de Lisboa com o poema “Fogueira do Obsceno”. Dois anos depois, recebeu o prêmio de Melhor Performance no Salão Internacional das Artes, em Portugal, pela videoperformance “Gessal”.

A memória como fio condutor
No centro da pesquisa atual da artista está a relação entre corpo e memória, com foco nas experiências de mulheres em situação de violência. O corpo aparece como território de inscrição e de resistência. “A memória é uma espécie de fio condutor do meu trabalho. Interessa-me pensar aquilo que permanece da história no corpo”, afirma.

Nos últimos anos, essa investigação se aproximou das narrativas ouvidas pelo Projeto de Pesquisa e Extensão Layee, da PUC Minas. A violência de gênero, porém, não surge nas obras como representação direta. “Ela aparece por aquilo que deixa”, explica Danielle, que trabalha com tecidos, transparências, costuras, palavras e o próprio corpo. “Minha intenção é criar possibilidades de discutir a memória por meio da experiência sensível, produzindo outros modos de olhar, sentir e construir discursos sobre ela.”
Um dos trabalhos mais fortes desse percurso é o espetáculo “Os corpos que me habitam”, com direção de Renatha Maia.Nele, narrativas de mulheres que sobreviveram a tentativas de feminicídio atravessam a dança e a performance, e a escuta vira matéria para a criação. Com esse trabalho, Danielle busca construir, pela arte, outras formas de tornar visíveis, sentir e interrogar questões sociais urgentes.

A escuta como modo de ver o mundo
Se a memória é o fio, a escuta é a agulha. A artista reconhece que a Psicanálise atravessa profundamente seu processo criativo. “Ela me ensinou sobre a escuta e sobre a impossibilidade de apreender completamente o outro. Há sempre algo que escapa à palavra, e talvez seja justamente nesse intervalo que a arte aconteça.”

O que interessa a Danielle está nas pausas, nas repetições, nos gestos, nos silêncios e nas imagens que surgem da escuta. “Em meu trabalho, a escuta não funciona apenas como técnica. Ela se tornou parte do meu modo de ver o mundo e, consequentemente, do meu modo de criar.”
A ética de transformar relatos em obra
Criar a partir de experiências de violência vividas por outras mulheres exige cuidado. “Existe uma dimensão ética quando trabalhamos artisticamente a partir de uma experiência partilhada”, diz a artista. Uma pergunta a acompanha em todo o processo: “É possível representar a violência?”
Por isso, ela não transforma os relatos em ilustrações nem reproduz o que foi narrado. “O que chega à obra é o que atravessa meu corpo e a minha própria experiência como mulher em um país colonizado e patriarcal. Não me interessa espetacularizar a dor e a experiência.” Segundo Danielle, a ideia é que a arte acolha o que foi dito e, ao mesmo tempo, leve essa fala para uma experiência coletiva. “Quando uma narrativa chega à obra, ela deixa de falar apenas de uma mulher e passa a interrogar as estruturas sociais que atravessam a experiência de muitas outras.”
Um território em chamas
É nesse ponto que a pesquisa sobre corpo e memória encontra o tema do Revoada. Em “Mãe-Terra, Corpo em Chamas”, o vestido remete ao feminino e à ideia ancestral da Terra como mãe. A artista, no entanto, quer ir além da metáfora e desfazer a separação entre corpo e natureza.
“A crise climática costuma chegar até nós por meio de números e reportagens que parecem estar distantes. Na obra, procuro aproximar essa experiência do corpo”, explica. “A Terra deixa de ser apenas uma paisagem e passa a ser entendida como matéria da qual fazemos parte.” Diante do território em chamas, o público deixa de ser apenas espectador. “Se a Terra queima, de alguma maneira, queimamos com ela.”

Numa cidade onde Augusto Ruschi alertou, décadas atrás, para a destruição da Mata Atlântica, a frase de Danielle soa como continuação daquele chamado. Se a ciência ajudou a medir a ferida, o Revoada aposta que a arte pode fazer com que ela seja sentida.
Serviço
I Salão de Artes Integradas de Santa Teresa, Revoada
Tema: A Crise Climática na Perspectiva da Arte
Produção cultural e curadoria: Vânia Caus
Artistas selecionados: Cristina Rovesse, Danielle Monteiro, Edivan Rodrigues, Eliane Consalter, Gabriel Araujo, Igor Reis, Kyria Oliveira, Laura Alkmím, Maria Stefanon, Máximo, NEGROSOOUSAPedro Kubitschek e Sandro Barçal
Período: de 3 a 30 de novembro de 2026
Locais: Galeria de Artes de Santa Teresa (GAST) e Instituto Nacional da Mata Atlântica, Museu de Biologia Professor Mello Leitão, Santa Teresa (ES)
Programação: abertura em 3 de novembro; rodas de conversa em 6 e 13 de novembro, na GAST; premiação em 20 de novembro; oficina em 21 de novembro, no INMA
Premiação: R$ 6 mil, com Prêmio Aquisitivo Revoada de R$ 3 mil para o primeiro lugar

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